A Internação Psiquiátrica como Ruptura de Vínculos Afetivos

A Internação Psiquiátrica como Ruptura de Vínculos Afetivos
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Em tempos de discussão sobre retrocessos na luta antimanicomial brasileira, o livro “Dona Maria abre a boca: Uma história de loucura e esquecimento” joga mais calor ao argumento da não internação compulsória do doente mental. A sua narrativa é em primeira pessoa, porque como autora, eu mesma revisitei o prédio abandonado do hospício em Barra do Piraí, Rio de Janeiro, onde minha avó materna, a dona Maria Valdomira do Espírito Santo que abre o título da obra, passou os últimos anos de vida.

Quase cinquenta anos depois, formada psicóloga em 2018, encarei o desafio de mergulhar nos escuros corredores do aprisionamento da loucura no Hospital Colônia de Vargem Alegre, que funcionou por quase setenta anos e foi fechado no início dos anos 2000. Hoje dorme em ruínas cercadas de lendas urbanas - fictícias ou não. Ali, o silêncio engoliu a pessoa da avó.

O confinamento do doente mental em instituições psiquiátricas sempre teve sua justificativa enraizada no entendimento de que loucura é contagiosa, corruptiva e ameaça a parcela sã da sociedade. Assim como a lepra na Idade Média era tratada com o simples banimento da pessoa infectada, a loucura é recebida ainda no século XXI como um impropério lançado na cara do ser “normal” e do “comum”. O louco desistiu de fingir sanidade num mundo em crise existencial. E isso não é para muitos, por enquanto.

O livro foi tratado como escrita terapêutica e recolhe fragmentos do cenário dos tratamentos institucionais da época. Ainda é espantoso como o ato de segregar permanece implícito nas conversas atuais sobre pessoas em situação de rua, onde circulam o marginalizado louco e o louco marginalizado.

Estar preso dentro de pensamentos alucinados, em diferentes dimensões de realidade, como na esquizofrenia, leva a um paradoxo de realidade em que, para sobreviver numa modernidade exaustivamente individualizante e tão cheia de hierarquias e contratos sociais, o louco seria aquele alguém incapaz de cumprir sua parte, portanto, não confiável, não imputável, não desejado. Portanto, segregado. E o lúcido é aquele para quem o mundo e suas mudanças morais e econômicas continuam fazendo algum sentido.

Michel Foucault, ao tratar da loucura nos lembra que:

 “A loucura, porém, não está somente ligada às assombrações e aos mistérios do mundo, mas ao próprio homem, às suas fraquezas, às suas ilusões e a seus sonhos, representando um sutil relacionamento que o homem mantém consigo mesmo”.

No livro sobre Dona Maria, esse “si mesmo” é a instância emocional encontrada como psicóloga a buscar para ressignificar a esquizofrenia da avó, com sintomas que surgiram na velhice pelo “desengavetar” dos traumas da pobreza e da impossibilidade de realização existencial. Dona Maria foi mãe, avó, analfabeta, lavadeira, alienada em manicômio e mistério para suas netas e netos. Rompeu com a realidade, procurando por passagens secretas na parede do banheiro, desgastando suas relações com os parentes próximos e - como mandava o senso comum dos anos 70 - candidatando-se ao hospício.

O livro não chega a ser autobiográfico porque vem recheado de textos poéticos atribuídos à uma avó que não aprendeu a ler. Entretanto, as reflexões sobre o afrouxamento dos vínculos familiares tão sofrido para os parentes de Maria aproximam o livro da temática antimanicomial em voga hoje.

Em janeiro de 2019, encontrei improváveis companheiros e recolhi memórias dos moradores de Vargem Alegre, vizinhos e parentes de funcionários ou pacientes. Também relato o encontro com uma pesquisadora que escolheu o mesmo objeto de pesquisa: o hospital psiquiátrico como tese de mestrado, onde menciona a tendência de confinar o louco ainda presente na parentela.

“Havia um cheiro de argila úmida nas paredes; e de seiva vegetal, de floresta aqui e ali em toda parte. O mais curioso dentro do prédio foi que os avisos da enfermaria era a única coisa ainda intacta. Eu pensei se haveriam enfermeiros e médicos solícitos - claro que haviam. Pensei em minha avó indo se esquentar um canto ensolarado no pátio, sem saber exatamente mais quem eram aquelas pessoas ou que tipo de conversa travar”.

Como dito na sinopse: trata-se de uma escrita afetuosa e terapêutica, que prioriza este relacionamento “consigo mesmo”, citado por Foucault e com a ambição de autoconhecimento. Critica uma cronologia da loucura no Brasil ao listar os modos de enfrentamento institucional punitivo pelo Estado e pela Medicina secular, corroborando Vieira (2007), para quem decidir o destino dos loucos é continua sendo uma orientação burguesa:

São nas instituições da monarquia absoluta, simbolizadas anteriormente através da arbitrariedade, que a ideia burguesa da virtude como um importante assunto de Estado se concretizará. A internação, portanto, é uma criação institucional própria ao século XVII e assume um sentido inteiramente diferente da prisão na Idade Média”

Ainda hoje, o Estado parece culpar - e punir - o pobre e o louco pelo seu empobrecimento e adoecimento. É nesta visão de uma Psicologia não-punitiva, mas restaurativa do ser humano em seu contexto espiritual, emocional, e social, que “Dona Maria abre a boca” está sendo publicado em junho de 2019 em uma plataforma de autopublicação de livros voltada para autores independentes (www.clubedeautores.com.br).

Sobre a Autora:

Rosemari Gonçalves é psicóloga formada e pós-graduanda em Psicopedagogia Educacional. Foi jornalista de 1987 a 1999. Reside em Vila velha desde janeiro. Atuou em Jornalismo até 1999 e em projetos sociais até 2017. 

Referencial:

VIEIRA, Priscila P. Reflexões sobre A História da Loucura de Michel Foucault - Revista Aulas; UNICAMP, 2007.

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