Dependência Química e o Valor dos Familiares na Recuperação

Dependência Química e o Valor dos Familiares na Recuperação
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Resumo: A dependência química está presente na vida de distintas famílias. As relações familiares apresentam uma ampla influência nesse campo da dependência, podendo de tal maneira provocar conflitos que induzem o indivíduo ao uso, quanto retomar e estabelecer vínculos importantes para a sua recuperação. A existência de um usuário de drogas afeta a organização do sistema familiar, interferindo na qualidade do seu convívio. Devido a esse fator, alguns autores citados neste artigo, entre eles Nogueira (2009) informa que mesmo que só um membro da família tenha desenvolvido a dependência química, todos necessitam de tratamento, uma vez que a família adoece junto. Logo, é complicado amparar o dependente, se a família não buscar ajuda e apoio. Meditando nesta realidade, o objetivo desse estudo foi realizar um levantamento bibliográfico sobre a importância da família na recuperação do dependente químico, por meio de artigos científicos publicados sobre o tema a partir das palavras chaves: drogas, dependência química e família. Assim, trata-se de um estudo qualitativo de natureza exploratória. Deste modo, contatou-se que a família é essencial e eficaz para o tratamento do dependente químico, significando de tal modo, o quanto é importante o seu envolvimento nas atividades e no acompanhamento passo a passo do processo. Portanto, a dependência química repercute os usuários e os seus familiares que convivem com os mesmos.

Palavras-chave: Drogas, Dependência Química, Família.

1. Introdução

 O uso de drogas é um acontecimento presente em todos os tempos e em todos os povos e não existe informação, até hoje, de uma sociedade humana na qual não tenha feito o uso de substância psicoativa (SCURSSEL; VASCONCELLOS, [s.d.]).  Apesar disso, é importante pontuar que os hábitos e tradições de cada sociedade é que direcionavam o uso de drogas, como em rituais coletivos, cerimônias e festas, sendo que, na maioria das vezes, este consumo era reservado a pequenos grupos (CARMO, 2000 apud PRATTA; SANTOS, 2006).

O que distingue o uso das drogas no passado e o uso contemporâneo, é que este deixou de ser um elemento de integração, um fator de harmonia em condição social e emocional da população, passando a ser um componente de doença social, de desintegração (BUCHER, 1991 apud PRATTA; SANTOS, 2006), uma vez que, nos dias atuais, o uso ritualizado diminuiu e como consequência abriu espaço para um uso mais individualizado e abusivo (PRATTA; SANTOS, 2006). Não podemos esquecer que a abundância de drogas existentes e a facilidade para comprar também são informações que colaboram para essa distinção (ALVES; KOSSOBUDZKY, 2002 apud PRATTA; SANTOS, 2006).

É fundamental sinalizar que a expressão droga é definida cientificamente como todo e qualquer medicamento (PRATTA; SANTOS, 2006). A Organização Mundial de Saúde (OMS) acrescenta que droga corresponde a alguma entidade química ou a combinação de entidades que podem modificar a função biológica e, provavelmente, sua estrutura (GALDURÓZ, NOTO; CARLINI, 1997 apud PRATTA; SANTOS, 2006). A mesma atua diretamente no sistema nervoso central (SNC), podendo ocasionar mudanças comportamentais, de humor, de cognição e de percepção e, conforme seu mecanismo de atuação no SNC, podem ser classificadas em três categorias: depressoras, estimulantes e perturbadoras.

Ao mesmo tempo, as drogas têm propriedades reforçadoras, podendo levar à dependência. A dependência química deriva de um desejo desmesurado de fugir ou experimentar alguma coisa não alcançável sem elas. Neste estágio, a droga passa a ser indispensável para o indivíduo, seja do ponto de vista anatômico ou psicológico (SCHNORRENBERGER, 2003). É analisada ainda pela OMS como uma doença que demanda cuidados especiais. Bem como qualquer outra doença, ela pode ser tratada e controlada, precisando ser enfrentada, respectivamente, como uma doença médica crônica e um problema social (PRATTA; SANTOS, 2006).

O dependente químico precisa de motivação para iniciar o tratamento e do apoio da família para mantê-lo motivado (COSTA, 2008). Nesse contexto é valioso lembrar que a dependência química não afeta só a vida do dependente, mas a vida de todos os envolvidos, em especial sua família. Em outras palavras, no processo de dependência química toda a família "adoece”, já que os relacionamentos tornam-se complicados e tensos (SCHNORRENBERGER, 2003).

Buscou-se, portanto, através desta pesquisa verificar a importância da família na recuperação do dependente químico em tratamento, através da pesquisa qualitativa de caráter exploratório e bibliográfico, de conteúdos referentes a drogas, dependência química e família. Assim sendo, verificou-se com esse estudo que a família é essencial para o tratamento do dependente químico.

2. Metodologia

Esta é uma pesquisa de natureza qualitativa que segundo Neves (1996, p. 1) não procura “enumerar ou medir eventos e, geralmente, não emprega instrumental estatístico para análise dos dados; seu foco de interesse é amplo e parte de uma perspectiva diferenciada da adotada pelos métodos quantitativos”. Rey (2005 apud HERZOG; WENDLING [s.d.], p. 10) destaca que o que importa na “pesquisa qualitativa é a construção de um significado a partir do conhecimento, diferente de outros métodos em que ocorre apenas uma apropriação linear de uma realidade que se apresenta”.

 Classificada com base em seus objetivos é uma pesquisa exploratória, pois a finalidade “de uma pesquisa exploratória é familiarizar-se com um assunto ainda pouco conhecido, pouco explorado” (SANTOS, [s.d.]). Quanto a sua classificação com base nos procedimentos técnicos utilizados, a pesquisa é bibliográfica. Segundo Amaral (2007, p. 1) as pesquisas bibliográficas “consistem no levantamento, seleção, fichamento e arquivamento de informações relacionadas à pesquisa”.

Deste modo, os principais recursos utilizados para esta pesquisa foram artigos científicos, livros, revistas, periódicos, entre outros. A análise e discussão dos temas apresentados estão baseados em proposições teóricas de diversos autores. Os artigos foram selecionados, lidos na íntegra e classificados de acordo com a relação com o tema. Os artigos que não tinham relação com o assunto foram descartados.

3. Referencial Teórico

As drogas encontram-se presentes entre os povos e culturas desde a antiguidade. Mas, conforme Alves e Kossobudzky (2002 apud OLIVEIRA; LEITE, 2010) foi a partir da metade do século XX e o início do século XXI que aconteceu um progressivo acréscimo da indústria do narcotráfico, uma ampliação da multiplicidade e número de drogas, acentuando o acesso para a obtenção e repartição. Como resultado, ocorreu o crescente consumo de drogas nas mais distintas partes da sociedade.

Desta maneira, as drogas deixaram a posição histórico-cultural de meros artifícios para apaziguar as tensões ou modificar a consciência em rituais místicos para ter outro desempenho dentro da cultura da sociedade contemporânea (SIELSKI, 1999 apud HERZOG; WENDLING [s.d.]). Atualmente como aponta Mangueira (2005 apud HERZOG; WENDLING [s.d.]) o prazer causado pelas drogas é de fácil aceitação, podendo preencher as deficiências afetivas do sujeito, o que pode fazer com que as substâncias sejam notadas como uma opção prática e viável para as enfermidades da vida.

É interessante notar que são muitas as definições de drogas encontradas na literatura. Entretanto, segundo Laranjeira e Nicastri ([s.d.] apud OLIVEIRA; LEITE, 2010, p. 71) droga é “qualquer substância que tem a propriedade de atuar sobre um ou mais sistemas do organismo (e que não seja produzida por ele), provocando alterações em seu funcionamento”. Pode ser vista também como implicação de uma “falta de adaptação à realidade e uma ausência de habilidade do indivíduo em lidar com o meio social, ou ainda de uma incapacidade em resolver os problemas que a vida lhe apresenta” (SILVA, 2000 apud SOUZA; PINHEIRO, [s.d.]).

Outro aspecto que merece menção, de acordo com Galduróz et al (1997 apud PRATTA; SANTOS, 2006, p. 316) é a classificação das drogas, podendo ser definidas em três categorias:

(a) depressoras – provocam redução da atividade cerebral, levando ao relaxamento; (b) estimulantes – provocam um aumento da atividade cerebral, fazendo com que o estado de vigília se prolongue; e (c) perturbadoras – perturbam a fisiologia do SNC, podendo provocar distorção na percepção das cores e formas, além de provocarem delírios, ilusões e alucinações.

Nesse contexto é fundamental distinguir os padrões de consumo das drogas como:

qualquer consumo de substâncias (experimental, esporádico ou episódico, por exemplo), abuso ou uso nocivo como sendo um consumo de substâncias que já está associado a algum tipo de prejuízo (quer em termos biológicos, psicológicos ou sociais) e, por fim, dependência como o consumo sem controle, geralmente associado a problemas sérios para o usuário (LARANJEIRA, NICASTRI, 1996, apud OLIVEIRA; LEITE, 2010, p. 72).

A maioria dos dependentes químicos já foi em algum momento um simples usuário de drogas, ou seja, somente consumia drogas ocasionalmente, porém nem todo consumidor virará dependente químico, já que para isso precisa levar em consideração o tempo do consumo, o tipo de droga ingerida, seu próprio organismo e verificar se é ou não vulnerável a substância (COSTA, [s.d.]).

De acordo com Neto ([s.d.], p. 982) a dependência química “é uma doença crônica com componente biológico, comportamental e social”, as tentativas de tratamento eficaz deverá essencialmente analisar esses três tipos de comprometimentos. A mesma é considerada também uma patologia complexa, “caracterizada pelo desejo compulsivo, intenso e incontrolável para a utilização da droga” (NETO, [s.d.] p. 982). “Encontra-se classificada mundialmente entre os transtornos psiquiátricos”, no qual Schenker (2003 apud COSTA 2008, p. 42) ressalta que “o sujeito não se torna dependente de drogas de uma hora para outra; trata-se de um processo lento e gradual”.

A dependência química pode ser considerada ainda como uma doença fatal, já que a droga devasta:

diretamente o organismo, afetando a saúde do indivíduo, podendo provocar danos irreversíveis e até mesmo a morte por overdose. Além disso, o indivíduo dependente, estando sob o efeito da droga, pode envolver a si mesmo e aos outros em situações de risco (DRUMMOND e DRUMMOND FILHO, 1998 apud PRATTA; SANTOS, 2006, p. 316).

Costa ([s.d], p.2) informa que

o dependente químico é caracterizado por sua procura constante pela droga seja ela legal ou ilegal, pois não há diferença entre legal ou ilegal se já existe a dependência física da substância, nisso o caráter ilegal descrito nas leis punitivas de nossa sociedade apenas as classificam como permitidas ou não permitidas e não proíbem o consumo das que provocam dependência, pois não existe droga que não leve a dependência. É claro que os efeitos destas drogas vão variar de acordo com suas composições e reações características.

Filho (1999 apud SCHNORRENBERGER 2003, p.28) menciona que existem várias causas da dependência química, podendo ser de “natureza biológica, psicológica, social ou resultar de uma combinação destas”. Os fatores biológicos estão relacionados ao organismo de cada sujeito, enquanto que os psicológicos referem-se à personalidade e individualidade de cada ser humano, sendo os seus medos, ansiedade, insegurança para afrontar as diferentes situações na vida cotidiana. Quanto às fatores sociais relacionados com o grupo familiar e a cultura em que está implantado.

A origem e/ou as razões que levam as pessoas a procurarem alivio nas drogas pode estar relacionada com problemas emocionais como o medo e a ansiedade; crescer em um ambiente agressivo, onde as famílias são desintegradas, ocorrendo à falta de amor e o desmazelo; desajuste familiar; amizades e a vontade de manter-se associado a um grupo até mesmo para exibir-se (FIGLIE, 2004).

 Todavia, as explicações para o porquê do uso são inúmeras podendo variar de pessoa para pessoa e de sociedade para sociedade (COSTA, [s.d.]). Independentemente das causas ou razões que levam o indivíduo a iniciar-se neste ambiente, todos têm como pano de fundo uma espantosa pretensão de evitar determinadas situações. “Além disto, convém lembrar que, a grande maioria dos que se iniciam nas drogas, acabam no mesmo porto de chegada: a perda do controle e a incapacidade da decidir sobre seus próprios rumos” (SCHNORRENBERGER 2003, p. 31).

 Segundo Shenker e Minayo (2004 apud HERZOG; WENDLING [s.d.]) a família é o grupo fundamental das relações do ser humano e, conforme Caldeira (1999 HERZOG; WENDLING [s.d.], p. 2),

é nesse grupo que se criam e se estruturam relações importantes de afeto, segurança e autoconfiança nas pessoas, pois se começa a estabelecer o limite entre o “eu” e o “não eu”, essencial ao ser humano.

No entanto, essas relações são tão marcantes que podem provocar confusões que façam com que um dos membros vire dependente químico (SHENKER e MINAYO, 2004), buscando um refúgio na droga, tendo em vista o estabelecimento de uma fronteira visivelmente mais segura (GUIMARÃES et al, 2009 apud HERZOG; WENDLING [s.d.]).

É adequado avisar que filhos de dependentes químicos apresentam um risco maior para o desenvolvimento da dependência química, “bem como para transtornos psiquiátricos, quando comparados com outras crianças” filhos de pais não dependentes (FIGLIE et al, 2004, p. 1). O uso de drogas pelos pais e outros familiares é certamente uma das grandes influências para que as adolescentes se tornem dependentes de drogas. Não podemos deixar de salientar que a dependência química não é compreendida e percebida com facilidade em famílias que possuem outras patologias.

A identificação de sujeitos com dependência química pode ser bem complicada, porém com o desenvolvimento dessa patologia alguns sinais podem se tornar mais evidentes. O diagnóstico é fundamentado em sinais e sintomas, com discernimentos claros e que consentem em constatar a existência de diferentes graus de dependência (ORTH, 2005 apud SOUZA; PINHEIRO, [s.d.]).

Neto ([s.d.] p. 986) destaca alguns sinais da dependência química, tais como:

doença que desencadeia postura isolacionista; Alterações comportamentais frequentes: humor, depressão, irritabilidade, agressividade, alternância euforia/depressão, instabilidade psíquica; Despesas elevadas não justificadas, problemas jurídicos frequentes, atividades extra-conjugais, elevados número de conflitos na atividade profissional; Frequentemente apresenta hálito e odor de álcool, com o sem sinais de alcoolismo; Frequentes desentendimentos domiciliares; Atividade sexual diminuída; Troca frequente de emprego; Necessidade de estar próximo a localização da droga; Frequente aparecimento de seringas, frascos, ampolas e garrafas na proximidade do domicílio; Frequentemente procuram lugares isolados, como por exemplo: banheiros; Esquecimento de seringas com sangue, gazes, algodões e garrotes em locais estranhos; Apresenta ocasionalmente sinais clínicos ou sub-clínicos de síndrome de abstinência: diaforese, sudorese e tremores de extremidades; Pupilas puntiformes (opióides); Descuido com a higiene pessoal e indumentária; Palidez e emagrecimento acentuado; Com frequência são encontrados em coma ou mortos antes que os sinais acima tenham sido notados.

Além destas qualidades, é conveniente sobressair que os motivos e as implicações, são típicos a cada situação. Filho (1999 apud SCHNORRENBERGER 2003) da sua opinião, ao dizer que cada caso é um acontecimento diferente. “Em situações muito parecidas, a solução que serve para um dependente não vale para outro e é por isso que há tantas e variadas formas de enfrentá-las” (SCHNORRENBERGER, 2003, p. 29).

Barreto (2000 apud SOUZA; PINHEIRO, [s.d.], p. 5) pronuncia que:

a droga funciona como uma “poção mágica” e dá a ilusão de que os problemas foram superados ou resolvidos. Na falta da “poção mágica” o indivíduo apresenta sintomas como nervosismo, inquietação, ansiedade, impulso para conseguir a substância a qualquer custo. Assim, a dependência física ocorre quando a substância é utilizada com freqüência e em grande quantidade; desta forma, o organismo acostuma com a substância e, quando retirada bruscamente, ocorre a síndrome de abstinência, provocando um desequilíbrio no organismo.

Em outras palavras, na falta de substâncias psicoativas o corpo desenvolve a chamada síndrome de abstinência que como lembra Sadock e Sadock (2007 apud FIGUEIRÓ, 2010, p. 24) “é um conjunto de sintomas que ocorre na ausência relativa ou absoluta de uma substância, após seu uso repetido, prolongado e com altas doses”. Figueiró (2010, p. 24) avisa que “nos momentos de crise de abstinência, o dependente faz o possível para conseguir a droga, nesta fase roubos, mentiras e muita agressividade são muito comuns”.

A abstinência só ocorre em quem é dependente químico, pois o organismo do dependente não consegue reagir sem a substância. O consumidor pode inclusive escolher o mais perfeito espaço para o consumo, o melhor horário. Agora o dependente não elege a melhor hora nem o lugar para consumir, já que tudo ao seu redor está concentrado no consumo das drogas. Para o dependente toda hora é adequada para o consumo (COSTA, [s.d.]).

A ausência de controle, devido ao uso de drogas, leva o usuário, aos poucos, a “perder seu senso crítico, sua identidade e cada vez mais sua própria auto-estima. Essas perdas interferem diretamente nas relações do membro dependente com os demais familiares” (FIGUEIRÓ, 2010, p. 24).  Consequentemente, a dependência química repercute os usuários e seus familiares que convivem com os mesmos (OLIVEIRA; LEITE, 2010).

Alguns pais recusam a ideia de ter um filho usuário, estando presos ao conceito de que isto só ocorre com os outros. Quando brotam as primeiras demonstrações do envolvimento de seus filhos com as drogas, muitos creem que é “coisa da juventude”, e que mais tarde deixarão o vício (SCHNORRENBERGER 2003). Schnorrenberger (2003) conclui que infelizmente, na maioria dos casos, os pais estão enganados. O mesmo ressalta que quando os pais reconhecem que seus filhos estão nas drogas, sentem-se culpados e pensam que fracassaram na educação.

“Quando um filho é usuário de drogas os pais devem ter consciência de que a relação familiar tem influência nas atitudes e que o seu apoio é fundamental para que este venha a buscar e aceitar a ajuda através de tratamento” (CAMPOS, 2002; VIZZOLTO, 2000 apud NOGUEIRA, 2009, p. 30). De tal modo, “em um primeiro momento, o esforço mútuo do apoio da família e a motivação do dependente para a mudança é importantíssimo para se dar o primeiro passo ao tratamento” (BERNARDI, 2002; Monteiro, 2000 apud NOGUEIRA, 2009, p. 30).

O consumo de drogas adoece toda a família “pois os relacionamentos tornam-se difíceis e tensos, acabando com a harmonia do lar”. Como efeito, “a família se desarticula e os valores familiares, humanos e morais perdem espaço para violências de toda ordem. Este processo culmina com a separação dos pais, saída de casa dos filhos e do próprio dependente” (SCHNORRENBERGER, 2003, p. 29).

Bernardi (2002) e Monteiro (2003 apud NOGUEIRA, 2009) relatam que existem diversos

fatores que contribuem para que o tratamento de um dependente químico seja realizado com sucesso, entre esses fatores está a participação ativa da família, e quando não existe o apoio familiar as chances do tratamento ser bem sucedido é reduzida. Sendo assim, considerar a família no tratamento significa envolvê-la nas atividades para que essa participe ativamente e o acompanhe passo a passo do processo do tratamento do dependente.

O desenvolvimento positivo de um tratamento para dependentes químicos está relacionado com a participação adequada dos familiares, uma vez que “a família é um sistema onde cada membro está interligado de forma que a mudança em uma das partes provoca repercussões nos demais”. Logo, “o indivíduo deve ser compreendido não só no contexto da sua individualidade, mas também familiar” (OLIVEIRA; LEITE, p. 73, 2010). Para Orth (2005 apud SOUZA; PINHEIRO, [s.d.]) as famílias dos dependentes químicos representam a fundamental rede de apoio do indivíduo, e, se bem apoiadas terapeuticamente, tornam-se também bem preparadas para enfrentar diversas situações.

Entretanto, na maioria das vezes as famílias procuram ajuda terapêutica quando já estão desgastadas suas relações e seu convívio. São poucas as famílias que buscam o socorro preventivo (SCHENKER, 2003 apud COSTA, 2008). Em alguns casos procuram tratamento quando o uso de droga já acarretou determinado prejuízo, dentre os quais o financeiro e o afetivo (COSTA, 2008).

 Costa (2008, p. 63) sinaliza que “a família muitas vezes custa a se dar conta da necessidade de tratamento não só pela barreira de silêncio, como também por sua própria resistência”. Segundo carvalho et al (2008 apud OLIVEIRA; LEITE, 2010, p.73 ) o que também se “espera da família é o cuidado, a proteção, o aprendizado dos afetos, a construção de identidades e vínculos afetivos, visando uma melhor qualidade de vida a todos os seus membros e a inclusão social em sua comunidade”.

Neste sentido, Silva et al (1896 apud SCHNORRENBERGER 2003, p. 37) nos alerta que diversas são as barreiras que as famílias devem superar. Entre elas as principais são: “vergonha, raiva, ressentimento, irritação, sentimento de culpa, sentimento de fracasso, problemas emocionais, desajuste financeiro, stresse, modificações dos papéis, entre outro”. As famílias hoje em dia constituem uma extraordinária fonte de apoio no tratamento, a partir do momento em que se analisa a família como um sistema que precisa de orientação e acompanhamento para que o resultado do processo terapêutico seja mais hábil e eficaz (CARDIM; JUMARÁ, [s.d.]).

Para Kalina (1988 apud SOUZA; PINHEIRO, [s.d.], p. 3) é complicado “conseguir ajudar o dependente químico se a família não buscar ajuda, sendo que uma das estratégias utilizadas é a terapia familiar”. Orth (2005 apud SOUZA; PINHEIRO, [s.d.], p.3) observa que “o tratamento para a família é focado na mudança, crescimento e transformação para poderem ajudar o membro familiar que está passando pela situação de dependência”.

Cardim e Jumará ([s.d.]) acrescentam que as intervenções mais empregadas no trabalho com familiares de usuários de substâncias químicas apresentam como base a visão sistêmica, a teoria cognitiva-comportamental e os grupos de auto-ajuda.

 A abordagem sistêmica procura intervir na dinâmica familiar, buscando compreender de que forma o uso de drogas está sendo empregado para sustentar a homeostase das relações; a teoria cognitiva-comportamental percebe que todo comportamento é aprendido e pode ser mudado, fato que gerará transformações nas relações familiares; e os grupos de auto-ajuda que normalmente são criados para que os familiares possam receber apoio, uma vez que suas vidas são afetadas pelo comportamento do dependente (CARDIM; JUMARÁ, [s.d.])

De acordo com Copello e colaboradores (2006 apud CARDIM; JUMARÁ, [s.d.], p. 7), as intervenções familiares geram resultados positivos, tanto para os usuários de substâncias psicoativas quanto para os componentes da família. “Estudos recentes têm mostrado que intervenções na família e/ou rede social melhoram os resultados se comparados a intervenções individuais”.

Existem outros tipos de tratamentos para os dependentes químicos como: Comunidade terapêutica, Grupo de Apoio, Grupo de N.A (Narcóticos Anônimos), entre outros.

Portanto, nesse contexto é importante que a família faça uma reflexão a respeito da história, das regras, dos papéis e das funções que foram constituídas no ambiente familiar, estando consciente de que para a transformação de seu ente que se encontra em um estado de dependência de drogas, “é preciso que ela também esteja disposta a modificar a sua forma de ser, se relacionar e de perceber a si mesma. Pois a relação interpessoal familiar tem influência sobre a melhora do dependente” (BERNARDI, 2002; CAMPOS, 2002; MONTEIRO, 2000; PENSO, 2000 apud NOGUEIRA, 2009, p. 30).

4. Conclusão

Após a realização da análise dos conteúdos, constatou-se que a dependência química é reconhecida com uma doença que afeta o indivíduo no campo biopsicossocial. As estratégias de tratamento buscam o restabelecimento físico, psicológico e a reinserção social. Mas, de acordo com alguns autores o tratamento é muito complexo e precisa da colaboração dos familiares.

 Schnorrenberger (2003, p. 39) averiguou que as drogas a cada dia que passa está se infiltrando nos ambientes familiares. Isto é comprovado pela última notificação sobre drogas “publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em Janeiro de 2001. Onde aponta que cerca de 180 milhões de pessoas usam drogas em todo mundo, ou seja, 4,2% da população mundial acima de 15 anos”. Esses dados confirmam a gravidade da situação e o quanto é essencial o uso de programas de prevenção e tratamento.

Cardim e Jumará ([s.d.]) destacam a necessidade da participação dos familiares na totalidade do tratamento do dependente químico para que os resultados e procedimentos sejam satisfatórios. O processo de tratamento e a orientação à família também colabora para o alicerce de uma ação essencial de prevenção. Figlie (2004 apud CARDIM; JUMARÁ [s.d.]) expõe que 80% dos pacientes acatados em um serviço ambulatorial, apresentaram melhor aderência ao tratamento quando seus familiares também eram acolhidos, do que os pacientes que não tinham familiares conectados ao serviço. Assim, é nítida a confirmação da importância que o dependente químico atribui à família para o seu tratamento. 

Pesquisas sobre este tema são fundamentais, visto que se trata de um assunto acentuado socialmente e cientificamente, uma vez que permite que a sociedade possa entender o quanto é extraordinário à família na prevenção e no tratamento da dependência química, e que os laços familiares têm implicações extremas para o ser humano, quando não estruturados.

Conclui-se, portanto, através deste estudo bibliográfico e exploratório, da revisão da literatura apresentada, que é fundamental a participação da família na recuperação dos dependentes químicos. Os familiares exercem sem dúvida o papel principal, servindo de motivação constante no processo de recuperação.

Sobre o Autor:

Verônica Sinfrônio do Carmo Santos - psicóloga e especialista em Saúde mental.

Referências:

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