Análise do Conceito de Autoimagem de Adolescentes no Contexto Escolar

Análise do Conceito de Autoimagem de Adolescentes no Contexto Escolar
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Resumo: É normal que o ser humano se preocupe com a própria imagem e gaste certa quantidade do seu tempo diário com o intuito de melhorar sua aparência. Entretanto, torna-se um problema quando este comportamento transforma-se em algo obsessivo e autodestrutivo como, por exemplo, chegar ao ponto de desgastar sua vida social e econômica na busca incessante por um ideal de beleza, sem nunca ficar totalmente satisfeito com os resultados. Nosso trabalho vem reunir publicações científicas sobre o tema, assim como a aplicação de um questionário em 116 alunos do segundo ano do ensino médio, em duas escolas públicas da cidade de Florianópolis/SC, realizando uma interlocução entre a bibliografia encontrada e os resultados obtidos nos questionários aplicados. Entre os resultados mais significativos encontrados a partir dos questionários, podemos destacar que 40% dos participantes gostariam de mudar algo em seu corpo e 47,5% dos participantes fazem ou já haviam feito algum tratamento estético, ou seja, percebemos que quase a maioria não está totalmente satisfeita com a própria imagem ou faz/já fez algo para melhorá-la. Os resultados convergiram com nossas hipóteses iniciais, de que a mídia tem grande influência na satisfação ou insatisfação dos adolescentes em relação ao próprio corpo, podendo até mesmo contribuir para uma distorção deste. 

Palavras-chave: Autoimagem; Adolescência; Psicologia escolar.

Introdução

A adolescência é um momento de transição entre a infância e a idade adulta, caracterizado pela manifestação do desenvolvimento físico, social, sexual e emocional (Tanner 1962; Eisensten 2005). A OMS (Organização Mundial da Saúde) adota o modelo cronológico de adolescência que tem  início aos 10 anos e o término aos 21 anos  (Whu 2005; Conti et al., 2009 ). Em relação ao desenvolvimento físico, o adolescente passa pelo período da puberdade, que é um período de novas experiências físicas e de uma nova percepção dos sentimentos e pensamentos sobre sua identidade. Neste contexto, pode-se dizer que a puberdade exerce influência não só sobre o indivíduo, como também sobre a família, os amigos e a escola - que tem um papel social sobre o indivíduo -, todos esses elementos exercem influência no adolescente (Richards et al., 1990; Conti et al., 2009) e em sua percepção de autoimagem (Santos et al., 2011; Miranda et al., 2014 ).   

Para Pereira (2010), a imagem corporal é uma experiência psicológica que, não só se refere à aparência física, como também um construto multifatorial que está relacionado a auto percepção, sentimentos, pensamentos, crenças e comportamentos em relação a si próprio e aos outros. A busca por uma forma física atrativa pode não ser adquirida com facilidade, isso pode levar à alguns comportamentos extremos para obter certa satisfação. Porém, às vezes, tais comportamentos podem ser prejudiciais à saúde, como o uso de substâncias diuréticas e laxantes, hábitos alimentares não saudáveis, além de exercícios extenuantes (Alves et al., 2008; Miranda et al., 2014). 

Para Dias (2000), as mudanças que acontecem na adolescência resultam em impactos emocionais tanto na esfera familiar como na esfera social, as quais são vividas como uma espécie de marco na crise identitária do jovem, entre a subjetividade e os valores tradicionais, ou seja, ocorre um choque entre o velho e o novo, sendo que este jovem acaba sendo levado pelos valores flutuantes da época, tais como regimes, esportes, moda, etc. O que vem por reafirmar a fase moratória proposta por Erikson (1998), manifestada em uma crise existencial resultante em uma busca por respostas, a qual se caracteriza por “crenças e valores flutuantes”.  

Frente à essa crise existencial, os autores Jeammet e Corcos (2005) afirmam existir uma relação entre corpo e a constituição da identidade durante esse período, a qual leva muitas vezes à procura de uma imagem ideal, que pode ser proposta pelo grupo ou pela mídia. O que resulta, algumas vezes, no surgimento de crenças alimentares associadas a altos índices de dietas feitas por adolescentes, pois o corpo acaba se tornando uma forma de descarga das tensões sociais e sexuais, ou seja, uma descarga emocional.  

Para averiguar se de fato a pessoas está acima do peso ou dentro do peso considerado “saudável” criou-se critérios de análise como o IMC (índice de massa corporal), o qual é calculado pela seguinte fórmula: “peso (em Kg) dividido pela altura (em metros) elevada ao quadrado”. Entretanto, essa classificação utiliza como base os critérios da saúde, enquanto o que predomina culturalmente é a questão estética, o que cria dificuldades na percepção de que um corpo esteticamente perfeito nem sempre corresponde a um corpo saudável, fato que fica amplificado na adolescência. 

Temos como objetivo geral deste artigo, analisar os dados obtidos para verificação de como se apresenta a distorção da autoimagem nesse grupo de jovens, usando uma revisão bibliográfica e aplicação de um questionário com alunos do ensino médio do Colégio Aplicação e do Colégio Militar na cidade de Florianópolis. Entre os objetivos específicos, podemos incluir: analisar, de forma geral, qual a principal forma de apresentação da distorção da autoimagem em jovens no contexto escolar; verificar quais as diferenças entre a concepção de autoimagem dos meninos e das meninas; observar quais atitudes tomadas por esses jovens na procura de uma imagem considerada “ideal”; analisar qual seria o corpo esteticamente perfeito na concepção desses adolescentes e, por fim, investigar se, mesmo estando no corpo considerado “padrão” pelo grupo, estes adolescentes se mostram insatisfeitos com seu corpo.  

Construção da Imagem Corporal 

O ser humano é um ser social que é constantemente influenciado pelo contexto em que ocupa. O conjunto de expectativas sobre o que deve ser, como se portar, sua aparência, sua credibilidade, são, segundo Jodelet (2001) fatores que o levam a ocupar um determinado lugar de representação social. Este lugar não corresponde simplesmente a reunião de determinadas características, mas se relaciona hierarquicamente com os demais, definindo assim se o sujeito, ou grupo, vai usufruir de privilégios específicos. O lugar de representação social é, então, fundamental na construção do sujeito, modulando o seu comportamento e influindo profundamente na maneira com que vive. Se a autopercepção pode ser definida como “um conjunto de crenças sobre si mesmo, incluindo aspectos como etnia, gênero, sexualidade” (Flook, et al., 2005), podemos facilmente compreender o profundo impacto da representação social na percepção que o sujeito tem de si.  

Segundo autores como Fischer (1990), Hart (2003), Schilder (1999) e Tavares (2003), compreendemos que as noções espaciais e temporais constituem o indivíduo na trama relacional, além de fazerem parte dos componentes da imagem corporal, estando assim ligadas à dimensão formacional, ou seja, compõem a imagem que o indivíduo tem de si a partir das suas percepções acerca da estrutura corporal, da aparência e da percepção que tem de como os outros o veem. Dessa forma, a imagem corporal do adolescente compõe o processo identitário e formacional deste. Portanto, para entender a forma como o indivíduo constrói a imagem do próprio corpo, como ele se vê e como se relaciona com o mundo, é necessário entender suas vivências e suas experiências desde o nascimento (Frois; Moreira; Stengel, 2011). “A imagem do corpo é a síntese viva de nossas experiências emocionais (…) é a memória inconsciente de todo o vivido relacional e, ao mesmo tempo, ela é atual, viva, em situação dinâmica, simultaneamente narcísica e inter-relacional” (Dolto, 1984, p. 15).  

Segundo Osório (1989), essa insatisfação com o próprio corpo sentida pelos adolescentes está relacionada com a estranheza e com a ansiedade diante das mudanças físicas, hormonais e afetivas. Entretanto, essa insatisfação/conflito tende a ser reduzido a partir do momento que o jovem reorganiza sua imagem corporal. Apesar de benéfico no processo de apropriação da identidade do adolescente, o conflito entre imagem corporal e corpos-imagem – inevitável neste período – acaba corroborando para o acirramento da angústia do jovem, 

A construção e a reconstrução da imagem corporal, segundo Aberastury e Knobel (1981), acontece em várias etapas da vida, não sendo exclusiva da fase da adolescência, entretanto, é agravada nesta devido à um processo de luto típico do corpo infantil, o qual permite uma mudança significativa do posicionamento do corpo em relação ao mundo. 

A perda que o adolescente deve aceitar ao fazer o luto pelo corpo é dupla: a de seu corpo de criança, quando os caracteres sexuais secundários colocam-no ante a evidência de seu novo status e o aparecimento da menstruação na moça e do sêmen no rapaz, que lhes impõem o testemunho da definição sexual e do papel que terão de assumir, não só na união com o parceiro, mas também na procriação (Aberastury; Knobel, 1981, p. 64) 

Portanto, para que esses jovens consigam se organizar diante deste conflito e recompor a própria imagem corporal, é preciso dimensionar o luto pelo corpo infantil, bem como fazer uma contraposição dos modelos parentais infantis e se apropriar dos modelos próprios de identificação. É neste momento que o jovem busca figuras idealizadas que se contrapõem aos modelos parentais, passando assim a desejar roupas e acessórios novos, diferentes espaços, vínculos e corpos. 

Em 2013, na capital do Rio de Janeiro, uma pesquisa conduzida por Silva, Taquette e Coutinho (2014) com cerca de cem adolescentes secundaristas da rede de ensino público, três grandes eixos foram identificados como pilares nesse debate: a influência da mídia e de padrões inalcançáveis de beleza; a articulação direta entre beleza e saúde; e a relação entre padrão de beleza e preconceito. Tornou-se notório que a imagem corporal modulava a maneira como o grupo lidava com os sujeitos percebidos como “desleixados” ou "preguiçosos", imediatamente associando biótipos não normativos à ausência de saúde. Curiosamente, muitos deles afirmaram não se importar com a beleza corporal nem vê-la como um importante atributo para o desenrolar das relações sociais, apesar de se maquiarem e  se vestirem de cores chamativas.   

O discurso do padrão de beleza normativo como sinônimo de saúde é extremamente comum para justificar a repreensão aos biótipos divergentes, estando intimamente relacionado ao ideal de felicidade, de juventude e do culto ao corpo. Tanto a mídia como a indústria da cirurgia plástica reforçam estas ideias, prevalecendo a ideia que o indivíduo deve se ajustar aos padrões normativos, seja através de exercícios físicos, dietas ou cirurgias, conforme dados recolhidos de estudantes de moda e educação física de Santa Catarina (Camargo et al., 2011).   

O modelo de beleza vem mudando com uma diminuição significativa do manequim considerado ideal (Le Breton, 2007). Esse conflito entre o corpo real e ideal, imposto pela mídia, estimula a busca de soluções, pelas mulheres, como dietas e cirurgias plásticas, muitas vezes prejudiciais à saúde física e mental. Observa-se assim, a multiplicação de casos de distorção da imagem corporal, que resultam em distúrbios alimentares como anorexia e bulimia (Secchi, 2009) 

 Segundo a APA (2000), a distorção da imagem corporal  é a  percepção do próprio corpo como maior ou mais pesado do que realmente é após ser comparado com os modelos de beleza na mídia. O gênero feminino é particularmente afetado pelos valores socioculturais e estéticos dominantes, potencializando o surgimento de transtornos mentais e reforçando a sensação de não adequação (Damasceno et al., 2006; Kravchychyn, 2013), assim como afirma Fortes et al. (2013):  

"Parece que o aumento de adiposidade corporal identificado no sexo feminino durante o período da adolescência é contraditório à idealização sociocultural de corpo, que, por sua vez, preconiza a magreza. Em contrapartida, para os meninos parece que as mudanças na aparência física reguladas pelo processo maturacional, como o aumento da massa magra e a redução da adiposidade corporal, estão de acordo com o tipo corporal idealizado. Todavia, estima-se que, independentemente da estética corporal apresentada, os adolescentes parecem estar vulneráveis à internalização de ideal corporal preconizado na cultura vigente. Sendo assim, na adolescência, o jovem pode estar mais suscetível à internalização do ideal de corpo, repercutindo negativamente na insatisfação corporal".   

Esta diferença na maneira com que homens e mulheres lidam com a autoimagem surge em decorrência das formas particulares em que cada gênero é educado e quais referências de sucesso lhes são impostas. Assim, o sujeito não adequado à norma sofre um processo de marginalização e passa a carregar um grande estigma. Fleitlich (2000), nos mostra que transtornos alimentares como bulimia e anorexia cresceram nas últimas décadas no países ocidentais. Com o gênero feminino prevalecendo como grupo de risco, a percentagem de homens afetados por estes transtornos é de apenas 7,5%. Corroborando com a tese de que o gênero feminino é um grupo de risco, um estudo conduzido no município de Cambé, Paraná, encontrou correlações entre a obesidade adolescente e transtornos depressivos e de ansiedade. Constatou-se que entre os estudantes pesquisados, foram as mulheres obesas as mais propensas a sofrer transtornos mentais em decorrência de sua condição física (Serassuel et al., 2015). 

A sociedade possui uma supervalorização da imagem, um culto ao corpo, considerando a magreza um componente ideal ao corpo. Desta forma, a adolescente já tem que lidar com as transformações físicas, e surge a frustração por não poder corresponder a esses modelos (Del Ciapo, 2010). A indústria corporal tem grande influência nessa construção da imagem ideal, por meio das grandes mídias, criando desejos e reforçando esse padrão estético. Atualmente, o corpo é associado ao ideal de consumo. Quanto mais o corpo manter a juventude, a beleza e a boa forma, mais haverá a aceitação social. Por essa lógica, as adolescentes estão presas a esse ideal narcisista, rígido e severo (Rodgers et al., 2009; Del Ciapo, 2010).  

Instrumentos

Para a coleta de dados, foi feito um questionário com instruções simples de aplicação por escrito, que continham 33 questões, além de itens que servem para caracterizar a pesquisa, como sexo e idade. Todas as questões do instrumento eram objetivas, utilizando-se da escala Likert, determinado ao início do questionário como seria medido as respostas. As questões do instrumento foram feitas de modo que se dividiam em questões que avaliam fatores cognitivos, afetivos e comportamentais. 

Participantes

Ao todo 116 estudantes secundaristas de duas escolas públicas de Florianópolis, Santa Catarina, responderam ao nosso questionário. Com a particularidade de uma das instituições ser gerida por militares, acarretando em diferentes exigências quanto ao uniforme, à maneira de se portar e aos diferentes rituais que perpassam à instituição.  

Nesse estudo foram analisadas as respostas de 80 questionários selecionados aleatoriamente entre os 116 realizados, separados em dois grupos. No grupo do Colégio Militar tivemos 40 participantes, sendo 22 do sexo feminino (equivalente a 55% dos participantes do Colégio Militar) e 18 do sexo masculino (equivalente a 45% dos participantes Colégio Militar). No grupo do colégio aplicação tivemos 40 participantes, sendo 22 do sexo feminino (equivalente a 55% dos participantes do colégio aplicação) e 18 do sexo masculino (equivalente a 45% dos participantes do Colégio Aplicação). A idade dos participantes do Colégio Militar variou de 16 a 19 anos e do Colégio Aplicação de 15 a 18 anos. 

Procedimento

Os questionários foram aplicados em dois dias diferentes, um para cada instituição, por diferentes membros do grupo. O procedimento, no entanto, foi o mesmo, contando com uma breve introdução sobre a razão de nossa visita, sobre a temática do projeto, e a orientação de como responder ao questionário. Cabe ressaltar que antes da aplicação dos instrumentos todos os alunos participantes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. 

Análise Estatística 

Entre outras formas de apresentação da distorção da autoimagem, destacamos aqui as avaliadas nesta pesquisa, de forma geral. Além dos itens que buscavam informações voltadas ao ambiente escolar, trouxemos outros que procuravam identificar situações cotidianas onde esta percepção distorcida do próprio corpo pudesse se tornar evidente. 

Uma das hipóteses levantadas neste trabalho partiu do pressuposto de que o contexto tem grande influência sobre a percepção do adolescente sobre seu próprio corpo. Sendo assim, resolvemos investigar se o uso uniforme escolar tinha alguma relação com a auto imagem dos estudantes. Como foi dito anteriormente, foram escolhidos dois colégios bastante distintos: O Colégio Militar, conhecido pela disciplina e padronização estética, onde o uniforme completo deve ser utilizado da mesma forma por todos os alunos, e o Colégio de Aplicação, onde, apesar de o uso do uniforme ser obrigatório, o mesmo se restringe ao uso da camiseta e os alunos usufruem de uma maior liberdade na escolha da vestimenta.  

No colégio militar, 30% dos alunos afirmaram se sentir confortáveis ao usar o uniforme escolar, enquanto 15% discordaram da afirmação. Já no colégio de aplicação, a grande maioria (42,5%) sente-se neutro em relação ao uniforme escolar. 17,5% dos alunos disse se sentir desconfortável e também 17,5% disse se sentir confortável.  

Ao contrário do que esperávamos, os alunos do colégio de aplicação mostram-se mais desconfortáveis com o uso do uniforme do que os alunos do colégio militar, apesar de este ser mais flexível (considerando que a questão da vestimenta é mais rígida no CFNP). O fato de 42,5% dos alunos ter sido neutro em suas respostas pode apontar para a banalização do uso do uniforme, podendo-se levantar a hipótese de que este não exerce tanto impacto na percepção destes jovens, por ser muito próximo das vestimentas que escolheriam no dia a dia e estar mais aberta a adaptações. 

Para compreendermos se o problema era manifestado apenas no ambiente escolar ou se estava presente no contexto sociocultural do adolescente, buscamos situações mais cotidianas onde esta distorção poderia aparecer. Para a afirmação “evito olhar para meu corpo no espelho”, a grande maioria (68,8%) disse discordar totalmente. Para itens mais abertos à interpretação e não tão específicos, como sentir desconforto em dinâmicas grupais ou sentir dificuldade para socializar, as respostas seguiram o mesmo caminho: para ambos a grande maioria respondeu negativamente às afirmações (61,3% e 72,5% respectivamente).  

Considerando que a maioria dos estudantes se vê nas silhuetas de número 4 (25%) e número 5 (25%) da escala utilizada neste estudo, e que a silhueta de número 4 também aparece como corpo ideal destes adolescentes, podemos entender que as afirmações acima tiveram resultados bastante negativos, por grande parte público alvo da pesquisa estar dentro do padrão aceito como ideal no contexto social em que estão inseridos.  

Porém, 40,1% dos alunos disse concordar de alguma forma com a afirmação “não me percebo como tendo o corpo ideal”, o que mostra que, apesar de a maioria estar no padrão que eles mesmo acreditam ser o ideal, ainda sentem-se longe do “corpo perfeito” e 65,1% dizem acreditar que ninguém se sente completamente satisfeito com o próprio corpo.  

Para avaliar como as relações interpessoais influenciam na manifestação da distorção da autoimagem, questionamos os estudantes sobre determinados comportamentos, como comparar seu corpo ao dos colegas (para qual apenas 23,8% dos participantes da pesquisa respondeu afirmativamente), e sobre sentirem ou não, vergonha do corpo, ou que terão mais respeito ao se enquadrarem no padrão imposto como ideal (para os quais tivemos 58,8% e 61,3% de respostas negativas, respectivamente).  

Dentre os objetivos destacados neste trabalho, pretendíamos observar quais atitudes tomadas por esses jovens na procura de uma imagem considerada “ideal”. 40% dos alunos afirmam ter procurado acompanhamento de profissionais da saúde, como endocrinologista e nutricionista. Quando questionados a respeito do uso de remédios para obter melhor forma (sem especificar quais tipos de remédio), 75% dos alunos responderam negativamente.  

Incluímos também itens à respeito de tratamentos estéticos (também sem especificar quais tipo de tratamento) e cirurgias plásticas, para os quais as respostas foram bastante negativas: 55% dos sujeitos responderam que discordam totalmente da primeira afirmação e 47,5% para a segunda.  

Entre os meios mais comuns para manter o corpo saudável estão a dieta e o exercício físico. Porém, nem sempre a motivação é positiva. Quando questionados sobre a motivação para realizar exercícios para manter uma vida mais saudável, 56% dos participantes respondeu positivamente; para sentir-se confortável com o próprio corpo, 30% concordaram totalmente; para sentir-se socialmente aceito, apenas 5% responderam afirmativamente.  

As motivações para manterem uma dieta foram divididas da mesma forma: para manter uma vida mais saudável, para sentir-se mais confortável com o próprio corpo e para sentir-se aceito socialmente, onde as respostas favoráveis foram, respectivamente, 25%, 22,5% e apenas 4%. 

O último aspecto levantado nos objetivos do trabalho a ser discutido é a comparação dos resultados por gênero. Para realizarmos esta análise, utilizamos o Teste-T, que nos dá os resultados da comparação entre as médias de dois grupos, aqui representando o gênero dos participantes. Vale notar que, para que seja considerado significativo, o p deve ser menor que 0,05 (p>0,05).  

Quando  comparadas as respostas para o desejo de mudar algo em seu corpo, a diferença foi significante, com t (-2,16), p = 0,033, com escores mais altos para as mulheres. Para este item, a média de resposta das mulheres ficou em torno de 4,068 (com desvio padrão SD = 1,265) e, para os homens, 3,417 (com SD = 1,422) .  

Os resultados para a escala de silhuetas não mostrou-se significativo, com p>0,05 para ambas (p = 0,580 para a escala 1, e p = 0,147 para a escala 2). Desta forma, não podemos  comprovar a hipótese levantada, de que as meninas desejariam diminuir alguns tamanhos na escala, diferente  dos meninos, que aumentariam o tamanho da silhueta ideal.  

Corroborando com a análise feita de forma geral (sem fazer o recorte de gênero), o p não foi significante para o Item 4, que diz respeito à aceitação social como motivação para a dieta, tendo p = 0,256. As médias foram bastante próximas, sendo 2,028 e 2,364, para meninos e meninas, respectivamente.  

Assim como para o item anterior, o Item 7, que questionava a mesma motivação para realização de exercícios físicos, mostrou resultados pouco significativos, tendo p = 0,214 e médias de 2 para as respostas masculinas e 2,364 para as femininas, com desvios padrão também bastante próximos (SD = 1,146 e SD = 1,399, respectivamente).  

Resultados

Um dos nossos objetivos era analisar, de forma geral, qual a principal forma de distorção da autoimagem em jovens de contexto escolar, e percebemos que a principal questão no questionário, para responder essa pergunta, foram os últimos dois itens (do fator cognitivo), na qual pedia para que os participantes assinalassem a figura que mais se identificassem atualmente e a figura com que mais gostaria de parecer, respectivamente. As figuras 4 e 5 seriam as consideráveis normativamente “saudáveis”. Foi curioso, porém esperado, que alguns participantes que eram claramente figuras 4 e 5, não marcaram essas figuras, mas quando perguntados como queriam parecer, marcaram as figuras 4 e 5. Estas respostas também já nos dão mais clareza de outros dois objetivos, que era saber qual era o corpo considerado esteticamente perfeito na concepção dos adolescentes participantes e investigar se mesmo estando no corpo considerado “padrão” pelo grupo, estes adolescentes se mostram insatisfeitos com o seu corpo.

No primeiro objetivo nós observamos que 35% dos participantes consideram a figura 4 o corpo esteticamente perfeito, e que 31,3% dos participantes consideram a figura 5 o corpo esteticamente perfeito. Já sobre o segundo objetivo, vimos que 33,8% dos participantes acreditam que ninguém é completamente satisfeito com o seu corpo e que 16,3% dos participantes não se percebem como tendo o corpo ideal. Corroborando com estas respostas, a APA (2000) mostra que a distorção da imagem corporal  é a  percepção do próprio corpo como maior ou mais pesado do que realmente é, após ser comparado com os modelos de beleza na mídia. A sociedade possui uma supervalorização da imagem, um culto ao corpo, considerando a magreza um componente ideal ao corpo. Desta forma, a adolescente já tem que lidar com as transformações físicas, e surge a frustração por não poder corresponder a esses modelos (Del Ciapo, 2010). 

Outro objetivo nosso era observar quais atitudes tomadas por esses jovens na procura de uma imagem considerada “ideal”. Para isso elaboramos questões de caráter cognitivo e comportamental. Umas das questões de caráter cognitivo foi “Gostaria de mudar algo no meu corpo”; a esta afirmação tivemos 40% dos participante que sim, querem mudar algo em seu corpo. Outra questão foi “Gostaria de fazer uma cirurgia plástica”, na qual tivemos 47,5% de respostas negativas a esta afirmação. Já dentro do fator comportamental, perguntamos aos participantes se faziam ou já haviam feito tratamentos estéticos, e tivemos 55% dos participantes que negaram terem feito qualquer tipo de tratamento estético e apenas 7,5% que afirmaram já ter feito. Houve também a questão “Já fiz/faço uso de remédios para obter melhor forma”, na qual 75% dos participantes negaram a afirmação, e 1,3% dos participantes afirmaram terem feito ou estar fazendo uso de remédio para obter melhor forma.

A questão “Evito comer coisas que não são saudáveis”, obtivemos um resultado de 36,6% dos participantes que negam evitar comer coisas não saudáveis e 3,8% de pessoas que afirmar evitar esse tipo de comida. Em contrapartida, perguntamos aos participantes se já haviam ido ao nutricionista ou endocrinologista, e a resposta foi que 28,8% dos participantes já haviam ido a um especialista e 25% nunca haviam ido um especialista. Também perguntamos aos participantes se eles já haviam feito/faziam dietas, dividindo os motivos da dietas em três categorias: dietas para ser mais saudável, dieta por não se sentir confortável com o seu corpo e dieta para se sentir aceito. Como resposta, 25% dos participantes fizeram/faziam dietas para serem mais saudáveis, 22,5% dos participantes fizeram/faziam dietas por não se sentirem confortáveis com o seu corpo e 3,8% que fizeram/faziam dieta pra se sentirem aceitos. Também perguntamos se fizeram/faziam exercícios físicos, os separando em três categorias de motivos: exercícios físicos para ser mais saudável, exercício físico por não se sentir confortável com o seu corpo e exercício físico para se sentir aceito. Como respostas, 56,3% dos participantes fizeram/faziam exercício físico para ser mais saudável, 30% fizeram/faziam exercício físico por não se sentir confortável com o corpo e 5% fizeram/faziam exercício físico para se sentir aceito.

Os nossos resultados corroboram com a literatura de Camargo (2011), ao dizer que o discurso de que o padrão de beleza normativo como sinônimo de saúde é extremamente comum para justificar a repreensão aos biótipos divergentes, estando intimamente relacionado ao ideal de felicidade, de juventude e do culto ao corpo. Tanto a mídia como a indústria da cirurgia plástica reforçam estas ideias, prevalecendo a ideia que o indivíduo deve se ajustar aos padrões normativos, seja através de exercícios físicos, dietas ou cirurgias. 

Sobre as Autoras:

Gabriella Renuncio Bodanese - Estudantes de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (Brasil)

Maria Eduarda Rodrigues Padilha - Estudantes de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (Brasil);

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