Mais do Que “Fake News” e Mensagens de Bom Dia: Compartilhando o Luto Materno em um Grupo no WhatsApp

Mais do Que “Fake News” e Mensagens de Bom Dia: Compartilhando o Luto Materno em um Grupo no WhatsApp
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Resumo: Este artigo tem por objetivo discutir a importância dos grupos de apoio presenciais e virtuais (estes, por meio do aplicativo WhatsApp) como fontes de suporte social para o processo de luto materno. O processo de luto pode ser compreendido como uma jornada singular para uma adaptação ou acomodação da realidade de uma ausência definitiva, na busca de equilíbrio e construção de significados. O grupo de apoio analisado foi formado por mães enlutadas que haviam perdido seus filhos devido a complicações cardíacas. Os encontros quinzenais aconteciam com a facilitação de duas alunas no aprimoramento em Psicoterapia para Pessoas Enlutadas do LELu (Laboratório de Estudos e Intervenções sobre Luto) pela PUC – SP. Tendo como referencial teórico a Teoria do Apego, compreende-se o grupo como uma base segura que permanece suportiva não apenas presencialmente, mas também por meio das redes sociais e como uma estratégia que pode ser aplicada em diferentes contextos, inclusive na saúde pública.  

Palavras-chave: Teoria do Apego, Luto, Grupos de Apoio, Redes Sociais.

Introdução

Embora saibamos que depois de uma perda dessas o estado agudo de luto abrandará, sabemos também que continuaremos inconsoláveis e não encontraremos nunca um substituto. Não importa o que venha a preencher a lacuna, e, mesmo que esta seja totalmente preenchida, ainda assim alguma coisa permanecerá. E, na verdade, assim deve ser. É a única maneira de perpetuar aquele amor que não desejamos abandonar.
- Sigmund Freud em carta a um amigo que perdera um filho (Bowlby, 2004, p. 21).

Vivenciar o processo de luto pela morte de uma pessoa querida é sempre uma experiência complexa, que exige recursos internos do enlutado para sua elaboração e posterior adaptação diante da perda. O processo de luto é individual e tem um curso específico de acordo com o tipo de vínculo, a causa da morte, a idade do falecido, entre outros. 

Como o luto não é uma patologia, nem sempre o enlutado precisará de suporte especializado, embora infelizmente ainda seja comum em nossa sociedade que as pessoas sejam medicalizadas logo após receberem a notícia do falecimento de um ente querido ou ainda diagnosticadas como depressivas durante o processo de luto, quando na verdade estão simplesmente expressando seu pesar. Na maioria dos casos, o luto não demandará atenção especializada, especialmente quando se trata de pessoas que contam com uma boa rede de apoio psicossocial - família e amigos (FRANCO, 2010).

Em algumas situações, porém, o luto pode ter uma maior duração, tornando-se o que já foi nomeado como “luto patológico” e atualmente é denominado como “luto complicado”. Este tipo de luto caracteriza-se quando o enlutado não consegue retomar suas atividades como eram antes da perda, com manifestações como sofrimento e angústia intensos que permanecem mesmo com o passar do tempo, tendência ao isolamento, sinais de depressão, baixa autoestima e perda de sentido de vida (FRANCO, 2010; WORDEN, 2013). O luto complicado é frequente em lutos parentais.

Diante da ideia de que perder um filho é a maior dor do mundo, é comum que as pessoas próximas de uma mãe enlutada afastem-se, por não saberem o que dizer. O silêncio, assim como as frases clichês e insensíveis (uma mãe comentou que ouviu de alguém: “Você é nova, pode ter outro filho” – como se o filho perdido pudesse ser simplesmente substituído por outro) podem contribuir para uma duração ainda maior do processo de luto, uma vez que ele é silenciado. A exigência social de que o enlutado siga em frente, “superando” a perda, também é uma falha neste processo de suporte social, no qual as pessoas próximas veem-se impotentes para ajudar o enlutado (WORDEN, 2013; BOWLBY, 2004). Uma participante do grupo que se discutirá no presente trabalho pontuou que por vezes é difícil encontrar um ouvinte quando quer falar sobre o filho que faleceu: “Ninguém gosta que eu fale dele, porque acham que dói demais”.

Os obstáculos encontrados para que o luto seja apoiado socialmente frequentemente estão relacionados à crença presente na cultura ocidental de que falar sobre a morte de um ente querido aumenta o sofrimento do enlutado e, no caso do luto parental, de que a ordem natural é que os pais morram antes dos filhos. Para Bromberg (1994, p. 87) “essa crença é uma forma de defesa que busca estabilidade e controle sobre fatos que fogem do controle humano”.

Diante disso, acredita-se que os grupos de apoio mútuo para mães enlutadas (tanto presenciais quanto virtuais) podem ser um importante espaço de acolhimento e suporte social. Como ouvimos de uma das mães enlutadas ao dirigir-se ao grupo: “Eu estou chorando aqui, mas não estou sofrendo, porque vocês estão me ouvindo”. Os grupos de apoio para enlutados permitem que cada participante expresse sua dor em um espaço seguro que não julga, acolhe a expressão de sentimentos e ao mesmo tempo favorece o encontro com outras pessoas que trazem angústias e questionamentos parecidos com os seus, criando confiança,  solidariedade e  o sentimento de pertencimento (PASCOAL, 2012; SILVA, 2015).

A relevância dos grupos de apoio se torna ainda maior quando pensamos que esta é uma estratégia que pode ser utilizada inclusive na saúde pública, no que diz respeito ao cuidado aos enlutados como prevenção em saúde mental.

O referencial deste estudo foi a Teoria do Apego, desenvolvida por Bowlby (2004) e que compreende que os vínculos que construímos ao longo da vida tornam-se a base para as nossas relações com o mundo, tendo também um papel fundamental para a nossa saúde mental. De acordo com o autor, as mais intensas emoções humanas são experienciadas durante a formação, manutenção e ruptura das relações de apego, ou seja, por meio das interações com vínculos significativos. 

Para Souza, Moura e Pedroso (2010), o processo de luto pode ser compreendido como uma forma de reagir à ruptura de um vínculo significativo, portanto seu curso estaria diretamente relacionado ao grau e tipo de apego, bem como os afetos relacionados à perda e seus significados.

O estilo de apego também influenciará significativamente no luto (PARKES, 1998; 2009; WORDEN, 2013). Podemos classificar os tipos de apego em:

- Apego seguro: ao perderem uma figura de apego importante, as pessoas que desenvolveram um apego seguro sentem a dor da perda, porém a intensidade do luto é menos intensa, não sobrecarregando a aceitação da realidade da perda.

- Apego inseguro do tipo ansioso/preocupado: pessoas com estas características demonstram um alto nível de estresse após a perda de uma figura de apego, podendo passar por um luto complicado, pois tendem a ruminar intensamente acerca da morte e a evitar as lembranças para diminuir a dor.

- Apego inseguro do tipo ansioso ou ambivalente: Ao perderem uma figura de apego,  as pessoas que apresentam este tipo de apego tendem a sentir raiva e ansiedade excessivas; porém, por sentirem-se culpadas por estes sentimentos, passam a idealizar o ente querido falecido. É mais frequente que este grupo passe por um luto severo e duradouro.

- Apego inseguro do tipo evitativo ou resistente: Aqueles que caracterizam-se por apegos deste tipo, tendem a apresentar de forma mais frequente a somatização da perda, uma vez que expressam pouco acerca de seus sentimentos. Durante o luto, tendem a ter maior dificuldade para procurar apoio dos outros.

- Apego inseguro do evitativo ou ameaçador: Diante de perdas significativas, indivíduos com este tipo de apego tendem a desenvolver altos níveis de depressão e a isolar-se socialmente, voltando-se para si mesmos.

Bowlby (2015) propôs quatro fases do processo de luto, que seriam:

  1. Fase de torpor: o choque da notícia e a dificuldade para aceitar que a morte ocorreu; dura de algumas horas a uma semana e pode ser interrompida por episódios de aflição ou raiva intensa;
  2. Fase de saudade/anseio e busca da figura perdida: pode durar meses ou anos; são comuns sonhos em que a pessoa que faleceu está viva, gerando um alívio temporário que transforma-se em angústia ao acordar; nesta fase, pode surgir a raiva por ter sido abandonado(a) e pela frustração de não conseguir recuperar o ente querido;
  3. Fase de desorganização e desespero: é necessário que a pessoa enlutada compreenda as oscilações de humor como fases esperadas na elaboração do luto; aos poucos, ela poderá “avaliar a nova situação em que se encontra e examinar as maneiras de enfrentá-la” (BOWLBY, 2004, p. 101);
  4. Fase de reorganização (em maior ou menor grau): aos poucos, a aceitação desta nova realidade e a formação de uma nova identidade e de novas relações com o mundo e com os outros vão acontecendo (FRANCO, 2010).

Para Bowlby (2004), na elaboração do luto saudável não há ansiedade ou desespero, mas sim, sentimentos de saudade e tristeza permeados por memórias agradáveis daquele que se foi.

Culturalmente, há uma tendência a atribuir-se maior trauma e sofrimento quando se trata da morte de um filho, especialmente quando criança ou adolescente. A frase: “Todos os lutos são traumáticos, mas alguns são mais traumáticos do que os outros” (PARKES, 2009, p. 159) faz muito sentido neste contexto.

Bromberg (1994), afirma que a perda de um filho predispõe a uma recuperação mais difícil e frequentemente gera problemas familiares que podem impactar até mesmo as próximas gerações. De acordo com Walsh e McGoldrick (1998), a perda de um filho pode impactar o casamento e a saúde dos pais, uma vez que envolve a perda de sonhos e esperanças. Diante da prematuridade e da sensação de injustiça ou castigo diante da morte de uma criança, os pais podem questionar de forma intensa qual será o sentido da vida a partir daquela perda. 

Diante da dificuldade de receber suporte social,  os grupos de apoio mútuo para enlutados permitem falar livremente acerca do filho falecido, das mudanças que a perda trouxe, das oscilações de humor presentes no luto, entre outros tópicos, expressando assim sentimentos que por vezes são inibidos socialmente (TAVARES, 2018).

Yalom e Leszcz (2006, p. 32) consideram que:

A terapia de grupo é peculiar por ser a única que oferece aos pacientes a oportunidade de beneficiar outras pessoas, e também estimula a versatilidade de papéis, exigindo que os pacientes se alternem nos papéis de receber e dar ajuda.

Por conseguinte, as redes sociais permitiram a expressão do luto em tempo real, para além de qualquer distância física entre a rede de apoio do enlutado. Frizzo et al. (2017, p. 225) têm estudado o uso da Internet como importante mediador social em situações de luto, facilitando o acesso à rede de apoio e suporte mesmo quando há alguma dificuldade de presença física. A partir de um estudo de caso, as pesquisadoras observaram que redes sociais como o Facebook podem favorecer “a elaboração do luto de familiares que enfrentam o processo de perda de seus entes queridos, por permitir a interação social de temas dificilmente tratados abertamente, tais como a morte”.

Yalom e Leszcz (2006) destacam que os números de grupos de apoio virtual têm aumentado, embora estes não ofereçam garantia de proteção à privacidade nem de fidedignidade das histórias relatadas. Porém, para pessoas que não podem frequentar grupos presenciais por questões de distância, problemas de saúde, ansiedade social ou medo de estigma, o ambiente digital (frequentemente em encontros em tempo real em salas de bate-papo) pode ser uma opção.

Outra contribuição das redes sociais para os enlutados é a troca de informação e a divulgação de materiais e recursos de apoio. Muitas pessoas relatam que chegam aos grupos de apoio presenciais por meio das redes sociais, após buscas específicas sobre onde encontrar ajuda. 

No caso deste estudo, um grupo presencial de mães enlutadas deu origem a um grupo de WhatsApp que contou com maior participação ao decorrer dos encontros do que o grupo físico. Entre as diferentes plataformas digitais, estima-se que o aplicativo de mensagens WhatsApp possuía cerca de 500 milhões de usuários em todo mundo em 2015. A plataforma também oferece a possibilidade da criação de grupos a partir dos contatos telefônicos do celular (SOUZA, ARAÚJO E PAULA, 2015). 

Metodologia

Trata-se de um estudo de caso analisado em uma perspectiva qualitativa. Os dados a seguir foram observados em um grupo fechado (presencial e virtual) de mães enlutadas. Os encontros aconteceram na cidade de São Paulo durante o segundo semestre de 2018, a partir da iniciativa de uma médica cardiologista em parceria com o LELu (Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto), na PUC. Como aluna do aprimoramento em Psicoterapia para pessoas enlutadas, tive o privilégio de ser uma das facilitadoras do grupo, que contou com outras profissionais (a médica que fez a ponte com as mães enlutadas; outra aprimoranda do LELu; uma psicóloga da instituição que gentilmente nos cedeu o espaço para os encontros; uma psicóloga que atualmente é residente em Medicina e foi convidada pela médica).

Resultados 

“Uma alegria compartilhada transforma-se em dupla alegria; uma dor compartilhada transforma-se em meia dor”.
- Provérbio chinês

Como foi apresentado anteriormente, os grupos de apoio para enlutados têm sido apontados como um importante recurso de cuidado. Entre os fatores fundamentais para que um grupo seja terapêutico, Yalom e Leszcz (2006) elencam onze itens, resumidos a seguir:

  1. Instilação de esperança: a expectativa de que o grupo poderá ajudar, especialmente quando outros membros apresentam melhora e o terapeuta mostra-se confiante nos resultados da intervenção em grupo.
  2. Universalidade: ao perceberem experiências similares e poderem compartilhar suas angústias, os participantes dos grupos podem se beneficiar ainda mais da catarse do que aconteceria em uma terapia individual, ao mesmo tempo em que podem receber a aceitação do grupo.
  3. Compartilhamento de informações: Os participantes dos grupos costumam compartilhar informações em um contexto de parceria e colaboração, facilitando um processo coletivo de psicoeducação.
  4. Altruísmo: os participantes podem oferecer e receber na mesma medida apoio, sugestões e observações que poderiam ser recebidas de forma diferente caso viessem de alguém que não houvesse vivenciado a mesma experiência.
  5. Recapitulação corretiva do grupo familiar primário: os padrões de relações familiares podem ser ressignificadas nesse grupo secundário, ao permitir que cada participante teste novos papéis e outros comportamentos na dinâmica.
  6. Desenvolvimento de técnicas de socialização: o grupo é um microcosmo social com regras, que permite um feedback rápido para os comportamentos de seus participantes.
  7. Comportamento imitativo: os membros de um grupo podem experimentar novos comportamentos a partir da observação de outros membros e dos facilitadores.
  8. Aprendizagem interpessoal: Por meio da interação com o grupo, cada participante pode identificar aspectos importantes de seu comportamento interpessoal e aquilo que é desenvolvido no grupo pode ser levado para a vida.
  9. Coesão grupal: os participantes constroem e compartilham intimidade, entendimento e aceitação entre si, inclusive permitindo que conflitos possam ser expressos. Nas palavras dos autores: “Os membros de um grupo coeso sentem afeto, conforto e um sentido de pertencimento no grupo. Eles valorizam o grupo e sentem que são valorizados, aceitos e amparados pelos outros membros’ (YALOM E LESZCZ, 2006, p. 62).
  10. Catarse: a expressão de fortes emoções parece ser mais benéfica quando se formam vínculos de apoio no grupo.
  11. Fatores existenciais: O grupo propicia o compartilhamento de reflexões como, por exemplo, reconhecer que às vezes a vida não é justa e discutir questões sobre o sentido da vida e a morte.

O ponto inicial para a formação do grupo estudado foi a universalidade: todas as mães enlutadas haviam perdido seus filhos devido a complicações de problemas cardíacos e foram convidadas para participarem dos encontros pela médica cardiologista que havia acompanhado os casos.

É importante frisar que para Bowlby (2004), os pais de crianças com doenças fatais iniciam o processo de luto logo no momento do diagnóstico. 

Como no caso de viúvas e viúvos, começa com uma fase de torpor, muitas vezes interrompida por explosões de raiva. Porém, como a criança ainda está viva, a segunda fase é diferente. Em lugar da descrença na morte, como acontece no caso de viúvas e viúvos, o pai não acredita na exatidão do diagnóstico e especialmente dos prognósticos. E, diferentemente da viúva ou do viúvo, que buscam o companheiro perdido, o pai tenta conservar o filho provando que os médicos estão errados (BOWLBY, 2004, p. 127).

Ao chegarem ao primeiro encontro do grupo, algumas mães  reconheceram-se do período em que ficaram no hospital acompanhando seus filhos. Das onze mães que haviam sido convidadas, compareceram seis.

Na dinâmica de apresentação, foi proposto pelas facilitadoras que o grupo se dividisse em duplas e cada participante se apresentasse à outra. Enquanto a atividade acontecia, ouvíamos de longe que os relatos das mães basicamente se resumiam à história do filho perdido e observamos que elas não falavam sobre o que faziam, seus outros filhos, sua rotina depois da perda, etc. Relataram o período da internação hospitalar, das cirurgias pelas quais os filhos haviam passado quando era o caso, e de como e há quanto tempo seus entes queridos haviam falecido.

Depois que cada dupla havia se apresentado entre si, o grupo foi aberto e cada uma das mães compartilhou com todas as participantes (mães e facilitadoras) um pouco da história da outra. Já no primeiro momento, houve uma carga significativa de informações compartilhadas entre elas: 

“Esta é a [mãe]. A filha dela tinha 22 anos, era alegre, estudiosa. A mãe se pergunta: se a filha não tivesse feito a cirurgia, teria vivido mais?”.

“A [mãe] não aceita a morte do filhinho dela”.

O encontro teve continuidade e as mães, agora em roda, puderam compartilhar outras falas, indicando que o grupo já havia se tornado uma base segura para expressarem um luto que tantas vezes é silenciado:

“Conversar com amigos que não passaram pela mesma perda é não encontrar palavras [de conforto]. Eu não sofro [ao falar sobre o filho], é um prazer ajudar a passar o que eu vivi” – Mãe que havia perdido o filho há nove meses. 

“Eu ainda não consigo aceitar ... ela é a minha história” - Mãe que havia perdido a filha há quatro meses. 

 “O momento mais difícil da minha vida foi escutar dele [filho de cinco anos, que havia falecido há quatro meses]: Mãe, você sabia que a saudade dói?’. Ele falou que eu ia sentir saudade dele, mas ele ia estar sempre grudadinho em mim”.

“Por mais que doa, eles ensinam a gente continuar, porque eles nunca desistiram, eles lutaram até o final” - Mãe que havia perdido o filho há cinco meses.

Estas falas são registradas aqui não apenas porque nos permitem compreender um pouco da dor dessas mães, mas também porque parecem ser a base do que se tornou depois o grupo virtual criado no whatsapp, criado no dia do primeiro encontro a pedido de uma delas, que também solicitou que houvesse um registro em fotografia deste momento. Esta fotografia do grupo presencial foi usada no perfil do grupo virtual.

Franco (2015, p. 219) destaca a importância de que o enlutado tenha um “diálogo que lhe possibilite ouvir e se ouvir para que possa argumentar com suas ambivalências”. No mesmo dia do encontro presencial, algumas mães compartilharam suas impressões sobre o primeiro encontro do grupo pelo whatsapp: 

“Foi muito bom. Voltei meio chorosa para casa, mas foi porque eu sabia que agora eu tenho com quem desabafar”.

 “Também voltei triste para casa mas me sentindo mais leve e reflexiva ... no quanto reprimo meus sentimentos e o quanto faz bem colocar pra fora toda essa carga emocional tão difícil de lidar. Obrigada, estarei no próximo encontro”.

Parkes (1998) refere que enquanto o enlutado faz seu relato para outra pessoa, ao mesmo tempo consegue se ouvir e perceber sua história sob outro ponto de vista. Ao longo dos encontros foram surgindo outras falas a respeito do luto que podem ensinar muito aos profissionais de saúde e à sociedade em geral:

“O tempo vai passando e as pessoas querem ouvir menos a sua história” – Mãe que havia perdido o filho há três anos.

 “As pessoas querem proteger a gente da dor, mas não entendem que a gente precisa viver essa dor”- Mãe que havia perdido o filho há três anos.

“É bem melhor vir e conversar com quem vai me entender do que ficar sozinha, sem saber o que fazer”- Mãe que havia perdido o filho há nove meses.

Mas o que chamou a atenção foi o fato de que todas as mães que haviam participando do encontro inicial continuaram comunicando-se com as demais por meio do grupo virtual criado no Whatsapp.

As “reações de aniversário” (quando completa mais um mês ou mais um  ano do falecimento, dia do aniversário e datas como o Natal) costumam mobilizar sentimentos de tristeza, saudade e angústia nos enlutados e estas também apareciam no grupo virtual. Como uma das mães enlutadas mencionou em um dos encontros presenciais: “Porque a gente nunca vai esquecer o dia em que nosso filho morreu”.

No grupo virtual, observou-se que mensagens referentes a datas especiais foram compartilhadas com as outras mães enlutadas:

“Hoje completa cinco meses sem o melhor sorriso; [...] sem o meu grande  amor ... Tá muito difícil esse dia para mim”.

“Hoje está fazendo 9 meses sem meu guerreiro [...]”.

“Hoje seis meses sem meu amorzinho, sem meu anjo de luz. Te amarei eternamente [...]”.

 “Esse mês de dezembro está tão difícil pra mim ... Quero que passe logo, passe natal e ano novo logo”. 

O apoio que as mães ofereciam umas às outras vai ao encontro do que Parkes (1998)  e Yalom e Leszcz (2006) referem ao pontuar que pessoas enlutadas podem ajudar umas às outras ao entenderem de fato a experiência que estão vivendo, de uma forma que os profissionais talvez não consigam fazer.  Diante de cada compartilhamento de mensagem, as outras mães validavam e respondiam a esses desabafos, compartilhando suas próprias experiências e tentando consolar as demais:

“Querida, sei bem como são esses dias... a saudade invade mesmo com força total :(  [...] Se permita e se distraia também, fique perto de pessoas que possam te acolher”.

“Sinto muito, o primeiro ano é o mais difícil de todos. A saudade dói demais. Se quiser conversar eu estou disponível, viu? Força e muito amor pra passar por esse dia”.

“A cada mês a saudade aumenta. Força, amiga. Um dia de cada vez. Estamos aí para um ombro amigo”.

Yalom e Leszcz (2006) consideram que a terapia em grupo e os grupos de apoio diferenciam-se das demais formas de cuidado por propiciar aos participantes a oportunidade de trazer conforto a outras pessoas, permitindo uma alteração de papéis ao receber e oferecer suporte.

Especificamente para mães enlutadas, os grupos de apoio facilitam o compartilhamento das experiências e dos desafios de continuar vivendo depois da perda de um filho, inclusive em relação ao seu papel social e à sua identidade: “Quando me perguntam quantos filhos tenho, como respondo?”; ajudam a criar uma rede de apoio social que traz pertencimento e ajuda a elaborar o luto (FRIZZO et al., 2017). 

 

Considerações Finais

A morte não necessariamente mata o amor. [...] Nossos filhos nasceram nos nossos sonhos antes mesmo de terem nascido para a vida. Não desaparecerão se nós não desistirmos de amá-los. Ninguém morre enquanto permanece vivo no coração de alguém.
- Gláucia Rezende Tavares (2018, p. 241). 

Com base nesse trabalho, acredita-se que os grupos de apoio mútuo podem ser importantes recursos de suporte para mães enlutadas. Em conjunto com  orientações e intervenções dos profissionais de Psicologia, os enlutados, de maneira geral, demonstram beneficiar-se de espaços seguros para compartilhar suas experiências, sem medo de julgamentos ou de frases clichês que invalidem seu sofrimento.

Pensando no suporte virtual, observa-se que muitas críticas são feitas a partir da visão de que a internet afastou as pessoas, porém, por outro lado, ela também possibilitou o encontro daqueles que passam por uma situação específica como o luto. Nas eleições presidenciais de 2018, o Whatsapp foi apontado como principal meio de divulgação das fake news. Ao mesmo tempo, para algumas pessoas, o aplicativo está associado a imagens com desenhos de flores e animais desejando bom dia. É algo positivo perceber que esta rede social pode também ser uma ferramenta útil para tornar mais leve o dia das pessoas, especialmente quando se trata de um grupo como este. 

"[...] finalmente, a pessoa enlutada descobre que muito do passado do relacionamento continua a ter importância no planejamento do futuro. Nos estágios iniciais do luto, os enlutados sentem como se tivessem perdido tudo de bom que vinha daquela pessoa que morreu; com o tempo eles descobrirão que isso não é verdade. Assim como os filhos adolescentes podem se separar de seus pais porque agora carregam consigo o mundo presumido destes, quando uma viúva diz 'Ele vive em minha memória' isso é literalmente verdadeiro. O reconhecimento desse vínculo contínuo com o morto é uma das coisas que tornam possível deixar que a pessoa se vá, simplesmente porque sabemos que nunca deixaremos de tê-la aqui" (PARKES, 2009, p.48).

A partir da experiência com grupos de enlutados, observou-se que o principal diferencial dos grupos de Whatsapp em relação às postagens no Facebook é que no aplicativo de troca de mensagens os compartilhamentos ficam restritos ao grupo. Para o enlutado, há a certeza de que apenas outras pessoas que também vivenciaram uma perda significativa irão visualizar o que ela partilhou e subentende-se que aquele grupo compreende perfeitamente o que ela está expressando.  A intensa e frequente troca de mensagens entre as mães enlutadas sugere que este é mais um recurso disponível para a terapia de pessoas enlutadas. 

A construção de significados para a resolução do processo de luto é singular e exige uma lapidação única de sentimentos que somente o tempo é capaz de fazer. Como uma das mães enlutadas falou em um dos encontros: “Não dá para se livrar do sofrimento, mas dá para vivenciá-lo de outra forma”.

Como sugestões para outros trabalhos, propomos que se investigue mais acerca dos fatores que podem contribuir para uma maior adesão dos participantes aos grupos presenciais e os fatores que favorecem a participação dos enlutados aos grupos de apoio virtuais.

Referências:

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