Aaron Beck e a Terapia Cognitiva

Aaron Beck e a Terapia Cognitiva
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Aaron BeckResumo: Considerado um dos cinco psicoterapeutas mais influentes de todos os tempos, Aaron Beck transformou a psiquiatria e a psicologia ao redor do mundo. Sua terapia cognitiva demonstrou-se inestimável no tratamento de uma ampla gama de transtornos. Beck também ajudou a mudar o entendimento e tratamento psicológico de várias condições difusas como a depressão, ansiedade e transtorno do pânico. Também desenvolveu instrumentos sofisticados para avaliar a severidade de síndromes específicas, fazendo ainda adições originais ao entendimento e prevenção do suicídio.

Palavras-chave: Aaron Beck, Terapia Cognitiva, Psicologia Cognitiva, Escala de Ansiedade de Beck, Cognição, Biografia.

Biografia de Aaron Beck

Aaron Beck nasceu em em 18 de Julho de 1921 nos Estados Unidos. Seus pais eram judeus imigrantes da Rússia. Beck estudou na Brown University, graduando magna cum laude em 1942. Logo em seguida estudou na Yale Medical School, graduando-se em 1946. Em 1953, certificou-se em Psiquiatria, e, em 1954, tornou-se Professor de Psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade da Pensilvânia. Nos anos 60, criou e dirigiu o Centro de Terapia Cognitiva da Universidade da Pensilvânia. Em 1995, afastou-se do Centro, fundando com sua filha Judith Beck o Beck Institute, em Bala Cynwid, um subúrbio da Filadélfia. Em 1996, retornou à Universidade da Pensilvânia como Professor Emérito, com um grande financiamento do NIMH - National Institute of Mental Health dos Estados Unidos.

É o criador de dois dos instrumentos mais utilizados de mensuração dos sintomas depressivos: a Escala de Ansiedade de Beck (BAI) e a Escala de Depressão de Beck (BDI).

Beck acreditava que a depressão pode ser causada por visões negativas e irrealistas acerca do mundo. Pessoas deprimidas tem uma cognição negativa em três áreas, que são consideradas a tríade depressiva. As pessoas deprimidas desenvolvem visões negativas sobre: elas mesmas, o mundo e seu futuro.

Utilizando uma base empírica para a teoria da melancolia de Freud, Beck desenvolveu estudos sobre a depressão. Ao descobrir que sua pesquisa invalidava conceitos psicanalíticos de depressão, Aeron Beck concluiu que os sintomas da psicopatologia da depressão podiam ser melhor explicados através do exame dos pensamentos conscientes do paciente, no lugar de tentar trazer à tona (hipotéticos) desejos reprimidos e motivações inconscientes. Ele desenvolveu um tratamento para a depressão baseado em auxiliar os pacientes a solucionar seus problemas atuais, mudar seus comportamentos disfuncionais e responder de forma adaptativa a seus pensamentos disfuncionais.

As descrições dos pacientes sobre si mesmos e de suas experiências evidenciavam pensamentos e visões negativas de si mesmos, de suas experiências de vida, do mundo e do seu futuro. Beck deu a esses pensamentos o nome de "pensamento automático”, visto que não precisam ser motivados pelas pessoas para vir à tona. Esses pensamentos são o resultado da forma como o indivíduo interpreta as situações do dia-a-dia, ou seja, o que fica “gravado” como importante não é o que está acontecendo, mas a visão do indivíduo sobre aquele fato. Tais visões demonstram distorções cognitivas da realidade vivida.

A partir do aprofundamento da origem desses pensamentos automáticos, é possível chegar às crenças centrais do indivíduo, que são as idéias mais fixas e enraizadas, oriundas do processo de desenvolvimento, experiências e formação do individuo desde a infância, aceitas por eles como verdades absolutas.

As distorções cognitivas influenciam a resposta emocional, comportamental e fisiológica do indivíduo. Pessoas com transtornos psicológicos com frequência interpretam erroneamente situações neutras ou, até mesmo, as positivas. Ou seja, seus pensamentos automáticos são tendenciosos.

A Terapia Cognitiva

Aaron Beck

Surge, deste modo, o raciocínio teórico subjacente da terapia cognitiva de que o afeto e o comportamento de um indivíduo são amplamente determinados pelo modo como ele estrutura o mundo (cognições/pensamentos). Segundo Luy1, a terapia cognitiva é uma abordagem estruturada, orientada para o presente, diretiva, ativa e breve, com foco na resolução dos problemas atuais e modificação dos pensamentos e comportamentos disfuncionais.

Uma das técnicas iniciais da terapia cognitiva consistia em identificar, testar a realidade e corrigir as conceituações distorcidas e crenças disfuncionais do indivíduo, substituindo-as por outras crenças e ideias que possibilitem ao indivíduo experienciar novos comportamentos e emoções menos prejudiciais a ele mesmo e, como consequência, aos outros.

As técnicas para corrigir as distorções utilizam a aplicação da lógica e de regras de evidência e experimentos reais para testar as crenças errôneas ou exageradamente negativas, buscando o ajustamento de informações à realidade. Segundo Luy1, através da psicoterapia cognitiva o indivíduo aprende a dominar problemas e situações vistas como insuportáveis. As alterações do conteúdo das estruturas cognitivas modificam o estado afetivo e o padrão comportamental.

Segundo Azeredo (2002) os axiomas formais da teoria cognitiva, postulados por Beck são:

  • O principal caminho do funcionamento ou da adaptação psicológica consiste de estruturas de cognição com significado, denominadas esquemas. "Significado" refere-se à interpretação da pessoa sobre um determinado contexto e da relação daquele contexto com o self.
  • A função da atribuição de significado (tanto a nível automático como deliberativo) é controlar os vários sistemas psicológicos (p.ex., comportamental, emocional, atenção e memória). Portanto, o significado ativa estratégias para adaptação.
  • As influências entre sistemas cognitivos e outros sistemas são interativas.
  • Cada categoria de significado tem implicações que são traduzidas em padrões específicos de emoção, atenção, memória e comportamento. Isto é denominado especificidade do conteúdo cognitivo.
  • Embora os significados sejam construídos pela pessoa, em vez de serem componentes preexistentes da realidade, eles são corretos ou incorretos em relação a um determinado contexto ou objetivo. Quando ocorre distorção cognitiva ou pré-concepção, os significados são disfuncionais ou mal adaptativos (em termos de ativação de sistemas). As distorções cognitivas incluem erros no conteúdo cognitivo (significado), no processamento cognitivo (elaboração de significado), ou ambos.
  • Os indivíduos são predispostos a fazer construções cognitivas falhas específicas (distorções cognitivas). Estas predisposições a distorções específicas são denominadas vulnerabilidades cognitivas. As vulnerabilidades cognitivas específicas predispõem as pessoas a síndromes específicas; especificidade cognitiva e vulnerabilidade cognitiva estão inter-relacionadas.
  • A psicopatologia resulta de significados mal adaptativos construídos em relação ao self, ao contexto ambiental (experiência), e ao futuro (objetivos), que juntos são denominados de tríade cognitiva. Cada síndrome clínica tem significados mal adaptativos característicos associados com os componentes da tríade cognitiva. Todos os três componentes são interpretados negativamente na depressão. Na ansiedade, o self é visto como inadequado (devido a recursos deficientes), o contexto é considerado perigoso, e o futuro parece incerto. Na raiva e nos transtornos paranóides, o self é visto como sendo maltratado ou abusado pelos outros, e o mundo é visto como injusto e em oposição aos interesses da pessoa. A especificidade do conteúdo cognitivo está relacionada desta maneira á tríade cognitiva.Há dois níveis de significado: (a) o significado público ou objetivo de um evento, que pode ter poucas implicações significativas para um indivíduo; e (b) o significado pessoal ou privado. O significado pessoal, ao contrário do significado público, inclui implicações, significação, ou generalizações extraídas da ocorrência do evento. O nível de significado pessoal corresponde ao conceito de "domínio pessoal".

Desde o início da década de 60, Beck e outros colaboradores vem adaptando essa terapia, desenvolvida inicialmente para o tratamento da depressão, para um conjunto diverso da população e de desordens psiquiátricas.

aaron Beck

A Terapia Cognitiva baseia-se na ideia de que pessoas com estresse têm frequentemente o pensamento distorcido/disfuncional. Este pensamento negativo tem um impacto igualmente negativo em seu humor, em seu comportamento e, frequentemente, em sua fisiologia.

As sessões de terapia cognitiva são habitualmente estruturadas e direcionadas para auxiliar o paciente a solucionar seus problemas atuais. Neste contexto, o paciente aprende habilidades de solução de problemas, pensamento e comportamento que ele utilizará não apenas durante o tratamento, ele utilizará durante todo o decurso de sua vida visando a continuidade de seu bem-estar psíquico.

Uma importante parte do tratamento é auxiliar pacientes a aprender como avaliar a validade e a utilidade de seus pensamentos negativos e como responder a eles de uma forma realista. Os pacientes, quando aprendem a fazer isso, se sentem melhor e tornam-se capazes de comportar-se mais funcionalmente. 

O tratamento é sensível em relação ao tempo de duração e é frequentemente mais curto do que outras psicoterapias pois, segundo Beck (2006), um dos objetivos principais do tratamento com a terapia cognitiva é ensinar os pacientes a serem seus próprios terapeutas. 

Segundo Dattilio & Freeman (1998), a terapia cognitiva tem tido um enorme impacto sobre o campo da saúde mental, demonstrando eficácia na compreensão e no tratamento de uma ampla extensão de distúrbios emocionais e comportamentais. A terapia cognitiva, conforme desenvolvida e refinada por Aaron Beck, é singular no sentido de que é um sistema de psicoterapia com uma teoria da personalidade e da psicopatologia unificadas, apoiadas por evidências empíricas substanciais. Ela tem uma terapia operacionalizada com uma ampla gama de aplicações também apoiadas por dados empíricos, que são prontamente derivados da teoria.

Referências:

1Beatriz Pianowski Luy in: http://www.psicosaude.com.br/ler_artigos.php?codArt=32

Beck, Judith. Entrevista com Judith Beck. Rev. bras.ter. cogn. v.2 n.2 Rio de Janeiro dez. 2006.

http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-56872006000200011&lng=pt&nrm=is

Dattilio, F. M. & Freeman, A. (1998). Compreendendo a Terapia Cognitiva. São Paulo: Editorial Psy.

Azeredo, S. D. Pressupostos da Terapia Cognitiva no Processo de Entendimento da Personalidade. 2002 disponivel em: http://www.saude.unisinos.br

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