O Suicídio na Adolescência: um Olhar Psicanalítico na Contemporaneidade

 O Suicídio na Adolescência: um Olhar Psicanalítico na Contemporaneidade
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Resumo: O presente artigo tem como objetivo evidenciar as características distintas ao suicídio na adolescência, seus princípios, abordar reflexões teóricas, e pensar sobre as mudanças que o passar dos anos trouxe no contexto real, a partir dos estudos realizados por Freud e as atualizações de teóricos pós-freudianos. Salientando que mais de um milhão de pessoas tiram a própria vida todos os anos no mundo, esse fato torna-se um desafio para a área clínica. Apesar de termos variáveis fatores que contribuem para o suicídio, os mais expostos são os jovens, que serão o foco deste artigo, os idosos e os socialmente isolados. Vale dizer que a prevenção ao suicídio é possível, sendo os comportamentos de ordem suicida, sempre dão indícios comunicativos, podendo ser estes sinais de ordem verbal, planejamento do ato, e na própria tentativa da retirada da vida. Cabe dizer que o suicídio não é qualquer morte, mas sim uma morte específica, em um momento específico. 

Palavras-chave: Suicídio na Adolescência, Psicanálise Contemporânea, Freud, Melancolia, Angústia.

1. Introdução 

Ao se trabalhar este tema, partindo de um ponto de vista psicanalítico, percebe-se que a conceituação freudiana não se dá por encerrada, e assim, os motivos suicidas permanecem sendo estudados. O crescimento da demanda de jovens que chegam por motivos de automutilações, tentativas de suicídio, fugas, impulsividades e agressividade, faz com que se aumentem a discussão em torno da temática.

Essa manifestação insondável desses jovens ocasiona reflexões como, o conceito da adolescência para a psicanálise e qual o entendimento dos atos cometidos pelos adolescentes acerca do seu sofrimento. O desafio é grande, meditar sobre as ações realizadas pelos adolescentes requer pensar nos obstáculos vivenciados por cada um deles.

 A adolescência é um tempo precioso, onde, questões rudimentares do processo de estruturação psíquica serão retomadas. Talvez a adolescência seja um tempo de concluir, no entanto, tratando-se de um nó que se emaranha em outras junções, sendo possíveis rupturas de uma composição, na qual se equilibrava um sujeito. Assim, torna interessante refletir sobre a adolescência e temporalidade.

2. A Adolescência e o Suicídio

A adolescência, historicamente falando, se inicia entre o século XVIII e XIX, mas o uso do termo para notabilizar a passagem da vida se vigora a partir do século XIX. Ainda assim, não existe uma distinção claramente estabelecida na colocação dos termos puberdade e adolescência. Define-se então adolescência o estágio da vida, que começa com a puberdade e vai se caracterizando pelas mudanças corporais e também psicológicas, que vai dos 12 até os 20 anos. No período da puberdade é onde mais ocorrem mudanças físicas, o amadurecimento sexual, onde pode acontecer a reprodução humana. Na obra freudiana, predomina-se, o termo puberdade (Vieira, 2014).

Para Freud (1905), a pulsão, que na adolescência conhecida por puberdade, alcança uma nova meta sexual, pois antes o predomínio era auto-erótico, agora a descarga é através de um objeto sexual. Adolescência que marca a passagem da infância para a vida adulta.

A adolescência trata-se de um período de transformação intensa, no qual há uma ruptura do equilíbrio pulsional obtido na latência. Com isso, uma nova ordem impõe uma mudança corporal irreversível, gerando, com isso, uma intensificação das fantasias e das buscas identificáveis através dos grupos. Instalada a da primazia do falo. Para Freud (1905, p. 196), a puberdade “(...) é como a travessia de um túnel perfurado desde ambas as extremidades”, o que nos faz pensar na força do despertar da sexualidade. Esse redespertar pulsional vem logo após a latência.

A inclusão numa família fornece um importante amparo ao jovem. Porém, o adolescente deve justamente matar simbolicamente seus pais para que possa responder por si só a demanda que lhe é feita. Sendo assim, com o afastamento dos pais, a sensação de desamparo é intensificada nos adolescentes.

Segundo Dolto (1988), o adolescente é, para os adultos que o cercam, objeto de questionamento carregado de angústia. Os pais temem a adolescência de seus filhos justamente porque vão reviver a sua própria, e a ansiedade sentida pelos pais é o que mais pode comprometer a autonomia do adolescente.

Para Calligaris (2010, p. 27), a dificuldade dos adultos de lidarem com o adolescente se deve ao fato deste ser um intérprete do desejo inconsciente do adulto:

O adolescente é ótimo intérprete do desejo do adulto. (...) O adolescente acaba atuando, realizando um ideal que é mesmo algum desejo reprimido do adulto. Mas acontece que esse desejo não era reprimido pelo adulto por acaso. Se reprimiu, foi porque queria esquecê-lo. Por consequência, o adulto só pode negar a paternidade desse desejo e se aproveitar da situação para reprimi-lo ainda mais no adolescente.

Na adolescência, a imagem na qual o sujeito se encontrava alienado é alterada, ocorrendo uma desorganização imaginária. Com isso, a imagem especular deve ser modificada de tal forma que o Outro e o objeto em questão adquiram outro valor psíquico. É apenas convocando os elementos da identificação simbólica que o adolescente poderá ultrapassar esse período crítico.

A identificação imaginária diz respeito a uma imagem que nos faz merecedores do amor do outro, e se constitui para um olhar do Outro - o Eu Ideal. O que está em jogo aqui é a semelhança, a aparência, tendo como base a noção de complementaridade. Já a identificação simbólica se constitui a partir do olhar do Outro; diz respeito ao ponto de onde somos observados para a avaliação se somos dignos de amor - o Ideal do Eu. Nesse caso, temos um traço do Outro que escapa à imitação, e é esse traço que possibilitará a articulação de todo o universo de identificações. Nesse sentido, elas não estão situadas num mesmo nível (Saggese, 2001).

Ao se comparar a um ideal - Ideal do Eu -, o adolescente ordena o emaranhado de identificações imaginárias, como se houvesse uma âncora, que seria um registro simbólico internalizado, e que lhe indica o lugar de onde pode ver-se como indivíduo no mundo. Segundo Saggese (2001), é o conceito psicanalítico de Ideal do eu que pode dar conta da crise da adolescência. Isso porque as vicissitudes do Ideal evidenciam a integração ou a desintegração do sujeito nesse momento em que é convocado a resgatar suas identificações mais primitivas, para que possa, depois de remanejá-las, responder por si só à demanda sexual que lhe é imposta. Se há dificuldades de conciliação entre as exigências sociais e as do ideal que já carrega, o adolescente responderá de forma sintomática.

Para  Melman, é comum que hoje as famílias se sintam impotentes e acabam por se tornar impotentes diante da liberdade que a sociedade dá aos adolescentes, que naturalmente agem de acordo com esses parâmetros. Este fato leva o adolescente a uma situação difícil, já que, segundo o autor, o momento da adolescência é, sobretudo, estar contra o pai e crer-se além do pai.

 O único outro aceitável para o Eu é o seu outro especular encarnado pelo Eu Ideal. No entanto, o luto desencadeado pelo abandono das figuras parentais como objeto de desejo contribui para o enfraquecimento narcísico do sujeito adolescente. Para lidar com o desamparo que emerge quando o sujeito não pode mais se sustentar como antes, nesse Eu Ideal garantido pelo investimento dos pais, o Ideal do Eu deverá buscar novas ancoragens para que possa fazer a sua função de guiar a relação do sujeito com o outro. Se neste momento não conseguir constituir novas referências que o ajude a transpor as identificações e idealizações da infância, um adolescente pode se precipitar numa descarga pulsional imediata no real através das passagens ao ato (Savietto, 2006).

Segundo Dolto (1988), é comum que os adolescentes cheguem com sintomas somáticos, como acne, escoliose, astenia, entre outros; ou que se defronte com uma espécie de prostração, sem motivação para nada, completamente desamparados, sem saber o que fazer ou o que dizer. Já em análise, oscilam entre a indiferença e uma forte queixa que eles não formulam.

O psicanalista teria a tarefa de dar lugar à palavra ali onde só há ato, os atos adolescentes vêm sem a mediação da palavra, e se fundamentam numa grande dificuldade com o laço social. A dificuldade que o adolescente tem com o recurso da simbolização leva a problemas como as injunções da linguagem que se assemelham aos da psicose. Não é à toa que os surtos psicóticos se dão, na maioria dos casos, no período da adolescência (Manfroni, 2011).

2.1 A visão Contemporânea

A mudança significativa das sociedades contemporâneas ocidentais e individualistas para as mais tradicionais demarcam uma diferença contextual. Nas sociedades nomeadas como tradicionais, os ritos de passagem envolviam atos que, ora marcavam o corpo, ora extraiam algo desse corpo, por exemplo, a incisão ou extração de dentes. Já nas sociedades tradicionais, era a partir de cirurgia do sentido que o sujeito saia da infância e entrava na vida adulta. Nas sociedades individualistas, os ritos coletivos que demarcavam a passagem para a vida adulta se perderam, e não sendo mais ritualizado, acaba se efetuando por um caminho pessoal (Le Breton, 2011).

A adolescência então, com o seu tempo de permanência ampliado, é marcada por acontecimentos importantes, onde, as fronteiras do eu se fragilizam, o Édipo é revivido e o funcionamento psíquico juntamente com o laço com o outro são definidos. Desta forma, torna-se um tempo de intenso trabalho psíquico. A passagem entre o discurso infantil direcionado ao Pai é transferida para os discursos sociais direcionado ao Outro social. Este remanejamento implica em outro remanejamento da organização psíquica e da relação do sujeito com o mundo (Lesourd, 2004).  

Os adolescentes estão emaranhados na transição implicada no adolescer. Revelam questões como à imagem do corpo que cresceu e se encontra submetido aos excessos pulsionais. O maior desafio se modela em orientar o adolescente nessa sua travessia, sendo necessária delicadeza, reconhecendo que a adolescência é diferente para cada sujeito, mas, sempre visando às hipóteses de demandas em comum. Sendo assim, se temos uma repetição que não é apenas de um, mas igualitária, pertencente a vários de uma mesma geração, é preciso atentar para o que está sendo denunciado acerca do campo social no qual os adolescentes estão inseridos (Lesourd, 2004).

A relação com o objeto adquire novas margens, mas é necessário ter conhecimento das marcas já existentes. As operações psíquicas são reativadas por uma nova potência, o emergir da sexualidade, a descarga pela maturação genital, a possibilidade de procriar, e a força física que antes não existia. Estes, normalmente apresentam dificuldades presentes desde a infância. Aos atos da adolescência, temos que ter a consciência de que esses não podem ser naturalizados porque nesta fase é esperada a “tendência a agir” (Alberti, 2009).

Nesta tendência de agir, percebemos certo capricho onde o sujeito se precipita, revelando determinadas alterações em sua conduta. Entre adolescentes, vemos com frequência nessa tendência de agir no apelo dirigido ao Outro, não sendo possível generalização, mas sim, apresentar observações realizadas na posição ao quais os adolescentes se situam na relação com o Outro (Alberti, 2009).           

Na relação do adolescente posicionado como objeto, ele se manifesta em resposta a uma angústia destruidora através da agressividade dirigida a si mesmo ou a outro. Relações marcadas por um embaraço diante de duas questões: “o que sou para o Outro?” e “o que o Outro quer de mim?”. Uma hipótese é que, diante desse embaraço, o adolescente responda com atos que (1) provocam a extração de um objeto de seu próprio corpo (sangue e/ou um pedaço da própria carne, ofertando esse sacrifício ao olhar do outro); (2) configuram-se como fugas que se apresentam como tendência a agir; (3) afrontam a lei (furtos e assaltos) e (4) agridam a si mesmos (escarificações, mordidas, batem a cabeça) (Alberti, 2009).

A passagem ao ato é, portanto, uma resposta rudimentar, que nos remete ao traumático, àquilo que é irrepresentável. Como vimos, a adolescência por si só pressupõe vivências traumáticas e violentas a partir do excesso pulsional, da fragilidade narcísica e egóica. A passagem ao ato como uma defesa, portanto, diz respeito a uma tentativa do sujeito de passar de uma posição passiva, do ponto de vista psíquico, onde o ego não consegue ligar a energia pulsional que irrompe no psiquismo, para uma posição ativa, onde há uma exteriorização de algo que é interno (Gaspar et al., 2011).

A passagem ao ato substitui o trabalho de elaboração psíquica, “por não possuir recursos para a elaboração de seu drama interior, o adolescente pode acabar recorrendo a uma atuação dramática” (Savietto, 2006).

Segundo Lacan (1963), o que está em jogo no suicídio é a passagem ao ato. Por trás da passagem ao ato temos um dar as costas ao Outro, fugindo da cena, da angústia e da divisão do sujeito, o que só poderá ter êxito no suicídio. Nesse sentido, para ele o suicídio seria o único ato que não é falho, o único ato bem-sucedido, no qual nada mais dirá ao sujeito o caminho a seguir. No suicídio, o sujeito foge do conflito sem medir as consequências de seu ato.

Em se tratando de uma intensificação de pedidos de ajuda pela via do ato, fala de uma sociedade na qual o sofrimento psíquico encontra pouco espaço para se manifestar por vias que não sejam as da medicalização, o corte distingue e separa o tempo antes da adolescência e um depois da infância. É possível observar traços melancólicos em determinados comportamentos, mas essas “patologias do ato” nos dizem de um algo a mais (Bauman, 2000).

Freud nos mostra que não há representação psíquica da morte no inconsciente, embora o sujeito não canse de tentar representá-la. Por trás dos casos de suicídio analisados ocorreram traumas decorrentes de rompimentos afetivos mal elaborados, dificuldades de processos de diferenciação no interior da família, bem como casos de assédio, o que podemos relacionar com o bullying na adolescência.

Sobre o adolescente e o suicídio, Alberti (2009) afirma que no jovem a fronteira entre a vida e a morte é muito frágil, pois fica difícil viver quando há uma nova tensão a todo instante. Para a autora, seguindo a visão freudiana, o Eu e a cultura estão em constante oposição na adolescência. A cada nova renúncia pulsional, aumenta-se a culpa, que pode voltar contra a própria pessoa.

Perda, solidão e imobilidade estão intimamente ligadas ao sentimento de desamparo, característica comum da adolescência contemporânea, o que nos remete também à problemática melancólica. Em 1917, com “Luto e Melancolia”, Freud caracteriza a melancolia como uma identificação ao objeto perdido, onde o sujeito sabe quem perdeu, mas não sabe o que perdeu nesse alguém, o que se pode relacionar a perda de referências que ocorre na adolescência.

Segundo Freud (1917), diferentemente do que ocorre no luto, a melancolia se caracteriza por um investimento objetal que é substituído por uma identificação, o Eu se identifica ao objeto perdido e o incorpora. O que ocorre é que, ao invés da libido, que ficou livre depois da perda do objeto, se ligar a novos objetos e fazer novas escolhas objetais, ela se volta para o próprio Eu.

Podemos então destacar que a subjetivação na adolescência identifica possíveis relações entre o aumento da incidência de patologias psíquicas nessa fase, que utilizam o recurso da passagem ao ato, e uma sociedade que nem sempre funciona como receptor para as angústias dos jovens (Bauman, 2000).

Freud nos mostra que a felicidade deriva da satisfação repentina da necessidade, de modo que sentimos prazer quando estamos num contraste: “Nada é mais difícil de suportar do que uma sucessão de dias belos” (1930, p. 84). Nesse dilema do sujeito ter o direito de satisfazer plenamente seus desejos, pode ocorrer um sentimento de insatisfação constante, de desinteresse para com o mundo externo, adquirindo uma necessidade de voltar-se para dentro. Hoje, temos um conflito caracterizado, sobretudo, pelo vazio. Sendo possível que os sintomas variem em questões de normas sociais. Se antes os sintomas suicidas eram caracterizados pelos êxtases numa cultura ainda religiosa, atualmente, os sintomas se caracterizam por um caráter depressivo ou compulsivo. Podendo acontecer de o sintoma como apelo ao Outro não ser atendido, sendo assim, não tem espaço social, sendo comum o conflito psíquico de forma direta como a passagem ao ato (Ehrenberg, 1998).

Atualmente, é comum nos depararmos com sentimentos de fracasso e desilusão por estarmos o tempo todo em busca de objetivos inalcançáveis, e assim, com a frustração. Desta forma, acredita-se que o fracasso seja o mal-estar contemporâneo. As mudanças normativas se referem ao modelo disciplinar de gestão de condutas, e a partir do momento que essa normatividade se afrouxa, ocorre um desmoronamento de valores. A norma que passa a guiar as subjetividades é a da iniciativa individual, levando o sujeito a tornar-se sujeito de si mesmo. Se ontem as regras sociais comandavam os conformismos de pensamento, hoje, elas exigem iniciativas e aptidões mentais; o indivíduo passa a ser confrontado com a patologia da insuficiência (Ehrenberg, 1998).

Sendo assim, os sujeitos passam a medir seus ideais pela aptidão, o que gera muita ansiedade, já que a vitória nunca é definitiva, e se as referências mudam, o mesmo acontece com a auto-estima, pois se submete a essas referências. O sujeito pertence ao que ela chama de “totalidade orgânica”. Quanto mais eficaz é essa homogeneização, mais difícil torna-se aceitar as diferenças e mais intensa é a ansiedade que esta pode causar (Melman, 2003)

Numa sociedade onde as exigências sociais são enormes, a necessidade de responder a um ideal de perfeição pode acarretar dificuldades em assumir seu sofrimento, gerando o pensamento de que é mais fácil elaborar do que passar por um momento de dor, desta forma, o luto passa a ser visto como um momento em que tudo se encontra “aparentemente” resolvido. Neste processo, não perderia tempo com o sofrimento (Ehrenberg, 1998).

Assim, muitos optam ainda, pelo medicamento. O medicamento, não é o problema, mas sim, a expectativa que esse gera no sujeito, levando a um bem estar artificial, que decepciona o sujeito na medida em que ele acredita que terá seu sofrimento resolvido, fazendo com que ele esteja sempre em busca de tratamentos mágicos, entrando em um ciclo vicioso onde a plenitude nunca é alcançada. Onde com o excesso de medicamento, o sujeito é levado a condições cada vez mais passivas, no entanto, cada vez mais depressiva, pois nesses casos, o medicamento cura o próprio sentimento de existir (Ehrenberg, 1998).

É interessante observamos que mesmo em outra época, nesta modernidade toda, em comparação a épocas passadas, nossa sociedade não está mais satisfeita e nem mais feliz. Com a falta de ideais, o sujeito contemporâneo se caracteriza como individualista e narcisista. Portanto, diante de uma sociedade com múltiplas referências, o que podemos dizer dos adolescentes? Em “Psicologia de grupo e análise do ego” (1921), Freud articula a “pobreza psicológica dos grupos”- fenômeno produzido pela falta da figura de autoridade, a algumas características frequentemente encontradas nos adolescentes da atualidade como: o excesso emocional, a impulsividade, a violência, a inconstância, o extremismo nas ações, a presença de contradições, a ausência de auto-respeito e de senso de responsabilidade, entre outros. Estas características são frequentemente encontradas nos adolescentes da atualidade (Calligaris, 2010).

A psicanálise propõe um olhar livre de preconceitos em relação à alma e suas dores, e se diferencia de outros tratamentos, pois ela responsabiliza o sujeito de se guiar a vida através do que ele sente em seu corpo e pensamento. Para Freud, o desligamento da autoridade dos pais é uma das realizações psíquicas mais importantes da fase da puberdade, mas pode ser a mais dolorosa também. Este é um processo de idas e (voltas), porque em certos momentos o sujeito vai precisar retornar a relação anterior que tinha com os pais para poder superar a separação, e os pais precisam desse movimento do filho que acompanham eles em sua trajetória, pois se os pais desistirem deixarão o filho desesperado, assim, procurando soluções trágicas, no caso, a tentativa ao suicídio (Alberti, 2004).

O suicídio se enquadra dentro de um contexto atual de sociedade que vivemos a globalização, que fornece acessos e informações, fazendo com que se torne imediata as necessidades do sujeito, e quando esse sujeito passa a ter contato ativo nessa sociedade, que vai impor direito e deveres, vai causar marcas psíquicas e externas. Apesar de sempre ser discutido por profissionais psicólogos e outros, ainda se tem receio para tratar desse assunto, pois configura como algo ameaçador para cada indivíduo, podendo ocorrer com pessoas próximas ou até mesmo familiares. O suicídio não é fadado aos hospícios, e sim dentro dos lares, podendo ocorrer na vida de qualquer sujeito (Hellman, 1964/1993)

O suicídio ainda é um assunto pouco comentado, considerado tabu, ainda mais se tratando da adolescência. O jovem age para demonstrar as emoções que sente, e por vezes se torna difícil lidar com fatores que causam estresse, pois, pode colocar a vida em risco mesmo sem ter a intenção de morrer, pois se vale de conduta para suicida (Hooven, 2013).

Segundo Freud (1917-1974), os homens não matam uns aos outros por temerem castigo divino ou das leis da civilização, sendo assim, se o homem acreditar que pode fugir das leis terrenas e que Deus não existe e que também não existe um juízo final, quase certo que quando for ameaçado, mataria para se defender.

Mas quando a morte não acontece por motivos naturais e sim pela interferência do próprio sujeito, o caso fica mais intrigante. Freud (1923; 1976) afirma que quanto mais a pessoa tenta controlar sua agressividade em relação ao outro, mais aumentam a agressividade do seu ego ideal para um caminho externo, podendo se voltar contra ele mesmo. Porque essa agressividade também aparece na melancolia, sofrimento que vem acompanhado e caracterizado por camuflado, mas forte sadismo. Quando um sujeito neurótico tenta suicídio na adolescência, significa que está fazendo um apelo.

O tratamento psicanalítico vai trabalhar a escuta, fazendo acontecer a subjetivação do ato. Quando o sujeito procura sua morte, ele está solicitando o escutar muito mais que o desejo que se encontra no recalque da neurose. Deve ser escutado urgentemente, pois se o sujeito tentou uma vez e não conseguiu, vai tentar novamente, só que desta pode obter sucesso (Gerez, 2000).

A psicanálise é solução para quem já tentou suicídio e também ajuda o adolescente a se livrar da questão da angústia, achando uma saída menos radical que se suicidar (Burman, 2007).

Pensar em suicídio na adolescência é normal, pois isso faz parte do seu desenvolvimento (Moreira e Bastos, 2015), mas não pode ser frequente:

“Conforme Ministério da Saúde (MS) do Brasil, as taxas de 2014 de suicídio entre jovens e crianças na faixa etária de 10 a 19 anos alcançaram 814 notificações. O suicídio é a terceira maior causa de morte, ficando atrás apenas para acidentes de trânsitos e homicídios (MS, 2014), mas a principal causa de internação psiquiátrica de adolescentes é a tentativa de suicídio (Kuazynski, 2014).”

Miller (2005) diz que existe nesta época uma tendência de isolamentos dos adolescentes, distanciando-os dos adultos, numa cultura própria a eles que ficam sujeitos a moda entusiasta, as tendências. Com esses impasses, o adolescente acaba se sentindo confuso e ansioso. Conforme Amaral (2007), o mundo adulto é que não entende as identidades passageiras dos adolescentes, querendo exigir deles algo do qual ainda não estão preparados, que é uma atitude de adulto. Dessa forma, não existe muitas alternativas para eles, e por causa da subjetividade individual, muitos ficaram atrelados aos conflitos, as angústias e também sintomas sintomáticos e juntamente a depressão, podendo assim tentar o suicídio.

Para aliviar a dimensão dos sintomas do sujeito, o psicanalista entra em cena com uma escuta. O adolescente e a família poderão contar como acontece o mal-estar que gera incômodo. A análise tenta ajudar o adolescente a encontrar diante desses deslizes, uma estabilidade maior para que consiga alcançar o respeito tão desejado, sem precisar cometer atos mortíferos (Lacadú, 2011).

O Conselho Federal de Psicologia (2013) direciona para os diversos fatores que influenciam os indivíduos a ir à procura da morte para tentar acabar com a dor e o sofrimento, como: emoções, fatores psíquicos, fatores religiosos e os socioculturais. O adolescente sofre transformações que podem acarretar em uma fragilidade maior relacionada à vida. Não sabem explicar o que sentem, ou nem sabem o que sentem.

A psicanálise vê o suicídio como uma alternativa para escapar de uma crise que nem sempre se consegue explicar sobre a mesma. Podendo ter uma comparação com uma tomada de decisão para muitos adolescentes. Tentar suicídio seria uma maneira de se fazer existir. Quem sofre com a vida, procura buscar a morte, pois a morte pode aparentar uma solução para a vida (Ansermet, 2003).

Freud descobriu a pulsão de morte, e percebeu que o sujeito também trabalha algo que leva a sua destruição e não somente ao seu bem-estar. Lacan (1959) também fala que algumas vezes o sujeito agiria de maneira prejudicial e não somente em favor do bem-estar.

Entre o pensamento e o ato acontece uma interrupção, o pensamento é tomado de dúvidas, e a base do ato é a certeza, e o suicídio se encontra neste ato. Quando a dúvida cessa, o ato acontece, nesse caso não existe solução que seja possível, não tem escolha, então o sujeito age (Ansesmet, 2003).

Alguns adolescentes se deparam com o abandono por falta de referências e são responsabilizados pela sua existência para se certificar se vale ou não a pena estar existindo, mesmo com toda a dúvida, de todos os conflitos e das angústias, alguns conseguem superar essa fase, chegando à vida adulta. Mas, existem alguns, em números cada vez mais altos, que sem hesitar, se lançam em condutas arriscadas. Condutas como: álcool, dirigir perigosamente, tentar suicídio, distúrbios alimentares, etc.

Os fatores que ajudam os adolescentes a terem essas condutas são inúmeras; como o abandono da família, a própria indiferença familiar, os pais querendo se identificar com os filhos, procurando se manter jovens, não aceitando a condição de serem mais velhos que eles. Também tem peso nisso a violência e abusos de ordem sexual, desavenças entre casal parental, a atitude hostil por parte da madrasta e padrasto; o que faz com que adolescentes queiram se afastar da família (Lacadée, 2011).

Com uma terminologia pobre em relação à palavra suicídio, desqualifica-se o ato de quem tenta ou tira a própria vida, e assim o acusam de poder ter o controle de suas próprias atitudes, e amordaçam e impedem que a pessoa traga a tona o que a morte representa sobre a sociedade em que o contexto acontece. Portanto, procura-se evitar o suicídio, pois a morte traz manifestações da vida e de uma sociedade opressora desigual, preconceituosa, competitiva e individualista que influencia no cometimento do mesmo, cabendo ao profissional da saúde saber conscientizar o sujeito de que ele não é responsável sozinho pelo seu fracasso ou sucesso.

É estimado que metade das pessoas que cometeram suicídio já tenham tentado anteriormente, fazendo com que a tentativa seja um fator de risco, tornando essencial o tratamento dessas pessoas.

Coloca-se para o sujeito que ele tem que permanecer vivo, mas não o ajudam a compreender os motivos pelo qual ele busca a morte, e ele continua aguentando a vida que é insuportável, por pensar que é pecado, e também não causar danos à família sem muitas vezes entender ou saber que ela poderia ser mudada. E na intenção de manter os indivíduos vivos, receitam-se medicamentos para suportarem as condições degradantes que se encontram e que não modificam a real condição adoecedora que vivemos, mas que dá uma nova percepção da realidade, aquela mesma que o faz querer a morte.

Do ponto de vista psicanalítico, o sujeito está sempre em busca de algo que possa preencher seu vazio existencial, que é marcada por uma falta. Falta essa que nunca vai ser sanada, que o leva a procura de uma causa, alguma coisa que faça sentido em sua vida. no entanto, as tentativas de suicídio não são apenas atos para chamar a atenção, mas sim um ato para implorar a atenção. 

O comportamento suicida deve começar ser prevenido na família, que precisa saber lidar com a morte, onde esse assunto fica escondido, pelo fato de pensar que os filhos pequenos não terão condições psíquicas para enfrentar essa situação. O papel da escola também é de grande importância, onde a mesma deve começar desde a pré-escola, trabalhando a importância da valorização da vida, de resgatar valores.

O psicólogo precisa estar ciente que necessita ter informações sobre o fenômeno, saber que os fatores de risco são vários, que existe sempre uma sensível área psíquica a ser compreendida. Na clínica existe uma diferença entre o ato suicida, em que a intenção é realmente menor daquela que no inconsciente o sujeito quer que não dê certo.

É possível a prevenção do comportamento suicida com excelente planejamento e criação de programas que envolvam vários profissionais que tenham qualificação necessária para a psicologia. O maior desafio do psicólogo é fazer que ao invés de atuar, o sujeito possa falar, possibilitar um tratamento, possibilitando a ele novas formas para expressar a dor que sente, dar um novo sentido à vida, abandonando a vontade de morrer.

3. Conclusão

Ao entrar nesse assunto, percebe-se que a mudança nos rituais de passagens da infância para a vida adulta, onde se encontra a fase da puberdade e onde há um apoio psíquico social, fez com que o adolescente se sinta envolvido em um emaranhado de condições conflituosas, e que com a contemporaneidade, deixa de ter esse acompanhamento e passa a ter que se estruturar psiquicamente sozinho.

As mudanças corporais, os conflitos familiares, bullying, violências e etc. são probabilidades que levam o adolescente a se direcionar para a passagem do ato. Onde, a angústia e a melancolia o fazem se voltar para si num sentimento de complexo narcísico da pulsão de morte.

O suicídio revela-se sendo uma fonte de fuga, onde o adolescente já não terá mais que lidar com seus conflitos psíquicos, que por vezes não são coerentes na conduta social, onde o ego não consegue mais controlar os desejos do id e nem as exigências do supereu, acaba por sucumbir-se a eles, não conseguindo manter em equilíbrio a estrutura que se reformularia na passagem da puberdade, levando o ao ato. No entanto, se o sujeito consegue passar por essa fase sem grandes turbulências, seu aparelho psíquico se reestruturará.

Percebe-se então com a psicanálise, em visão de mudança, vê que, o que impulsiona o sujeito a se render a pulsão de morte, levando-o ao ato, é a individualização. Não tem um olhar para o outro, não tem um apoio paternal, e não tem um apoio social.

Cabe ao profissional olhar além, neste momento de extrema fragilidade, que com uma boa escuta consiga mudar a visão que o adolescente nesse processo conflituoso tem do mundo e de suas complexidades, e através da fala perceba que há novos rumos a serem seguidos além dos atos suicidas.

Referências:

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